Pesquisa de Weslley Rodrigues analisa atuação do Observatório das Infâncias e Juventudes na Educação e evidencia a importância das políticas de cuidado, inclusão e permanência no ensino superior. Em um contexto marcado pelos desafios relacionados à permanência estudantil e ao reconhecimento da diversidade sexual e de gênero no ambiente universitário, uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEd) da Universidade Federal do Piauí (UFPI) evidencia experiências de acolhimento, produção científica e resistência construídas no âmbito da Instituição.
Weslley Rodrigues, autor de tese sobre o OBIJUVE, ao lado de sua professora e orientadora da pesquisa, a professora Shara Jane Holanda Costa Adad
A tese de doutorado de Weslley Rodrigues, orientada pela professora titular Shara Jane Holanda Costa Adad (coordenadora do OBIJUVE, desde 2009), investigou como o Observatório das Infâncias e Juventudes na Educação (OBIJUVE) consolidou-se, ao longo de duas décadas, como um espaço de cuidado, pertencimento e fortalecimento das trajetórias acadêmicas de pessoas LGBTQIAPN+. O trabalho também foi indicado ao Prêmio JABUTI ACADÊMICO. Defendida em fevereiro de 2026, a pesquisa intitulada "OBIJUVE como abrigo da diversidade LGBTQIA+: cartografias do cuidado e performances na pós-graduação em Educação da UFPI" analisou a atuação do Observatório entre 2012 e 2026. O objetivo foi compreender de que forma as práticas de cuidado, as ações afirmativas e as estratégias de resistência desenvolvidas pelo grupo contribuíram para a permanência e a formação de estudantes e pesquisadores LGBTQIA+ no Ensino Superior. Vinculado ao PPGEd/UFPI, o OBIJUVE desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão voltadas aos estudos do corpo, às infâncias, juventudes, diversidades, direitos humanos, inclusão social e políticas de cuidado. Ao longo de sua trajetória, o grupo promoveu projetos, eventos científicos, ações formativas, pesquisas acadêmicas e iniciativas de diálogo com movimentos sociais e comunidades externas à universidade. Segundo Weslley Rodrigues, a pesquisa nasceu de inquietações pessoais e acadêmicas relacionadas às experiências vividas por pessoas LGBTQIAPN+ nos espaços educacionais. "Minha tese investiga como o OBIJUVE se consolidou, como um território-abrigo para as diversidades sexuais, articulando práticas de cuidado, produção científica e resistência. O estudo analisa como esse coletivo tem contribuído para que estudantes e pesquisadoras(es) LGBTQIA+ encontrem condições de permanecer na Universidade, produzir conhecimento e transformar a própria Instituição." Produção da tese Durante a investigação, Weslley analisou dissertações, teses, trabalhos acadêmicos e artefatos digitais produzidos pelo OBIJUVE, incluindo publicações nas redes sociais, como Instagram e Facebook. A pesquisa demonstrou que esses registros vão além da divulgação científica, constituindo espaços de formação, produção de conhecimento, memória, acolhimento e fortalecimento de redes de apoio. O pesquisador iniciou o trabalho examinando um acervo com mais de 144 produções acadêmicas. Após um recorte temático voltado às pesquisas sobre diversidade sexual e questões de gênero, identificou oito dissertações e quatro teses relacionadas ao tema. Destas, selecionou quatro dissertações e duas teses para uma análise aprofundada. Segundo Weslley, uma das maiores descobertas foi perceber que grande parte dessas pesquisas havia sido produzida por pessoas LGBTQIAPN+, que encontraram no Observatório um espaço de acolhimento, produção científica e afirmação de suas identidades. "O que mais me surpreendeu foi perceber que essas teses e dissertações eram de pessoas LGBTQIA+ ocupando esse espaço. Passei a conversar com esses corpos, que eu chamo de 'corpus-textos', corpos que dialogam entre si e que, nesse movimento sociopoético, constituem um grupo." A coordenadora do OBIJUVE acrescenta: “A Sociopoética é a abordagem de pesquisa, ensino e aprendizagem que caracteriza nossas práticas educativas e a produção do conhecimento. Esta abordagem produz conhecimento em grupo, com o corpo todo, com o uso de técnicas artísticas, com pessoas historicamente invisibilizadas e em processos de criação de si e de mundos com ética e espiritualidade”. Além da produção acadêmica, a pesquisa analisou a memória visual do OBIJUVE por meio das redes sociais, especialmente do Facebook, onde foi identificado um amplo conjunto de registros das atividades desenvolvidas ao longo da história do núcleo. "Fiquei maravilhado com a riqueza documental presente nas redes sociais. Ali foi possível perceber os projetos, as ações e as performatividades do núcleo ao longo dos anos." Entre os registros encontrados, Weslley destaca a participação do Observatório nas Paradas da Diversidade e Semana do Orgulho de Ser promovidos pelo MATIZES, a atuação das Kátias Coletivas - jovens de diferentes áreas que se uniram para expressar-se ao seu modo no contexto da universidade, memorial Janaína Bezerra, JUBRA 2023, Queerdrilhas, além de outras diversas iniciativas que deram visibilidade às pautas da diversidade na Universidade Federal do Piauí. "Esses documentos mostram pessoas ocupando a universidade com seus corpos, suas identidades e suas existências, provocando a instituição a pensar a potência da diversidade." O pesquisador também ressalta o compromisso do OBIJUVE com a sociedade ao promover debates públicos e ocupar diferentes espaços em defesa dos direitos humanos. "Quando surgiram projetos que buscavam negar as discussões sobre gênero e sexualidade nas escolas ou quando duas participantes do núcleo enfrentaram discursos de ódio, misoginia e tentativa de deslegitimar o acervo de pesquisas Sociopoéticas por seguir o modelo de ciência tradicional, o observatório foi para as ruas, participou de audiências na Câmara Municipal, promoveu aulas públicas e mostrou a importância dessas discussões para a sociedade." Para Weslley, um dos principais resultados observados foi o impacto formativo do Observatório na trajetória de estudantes e pesquisadores que passaram pelo núcleo. "Todos aqueles que passaram pelo observatório viveram um processo de formação e se tornaram multiplicadores. Hoje muitos são professores universitários, pesquisadores e desenvolvem trabalhos importantes sobre inclusão, diversidade e sexualidade." Segundo ele, esse processo foi possível porque o Observatório sempre estimulou a autonomia e a criatividade de seus integrantes. "O OBIJUVE oferece liberdade para criar. E quando você encontra um espaço que permite criar, você se sente pertencente. Você se afirma dentro dele." Ao avaliar a contribuição da professora e coordenadora Shara Jane Holanda Costa Adad para a trajetória do OBIJUVE, Weslley afirma que sua gestão ampliou significativamente os debates e a produção do conhecimento sobre diferentes problemáticas acerca das juventudes e da diversidade na universidade e fortaleceu a articulação entre ensino, pesquisa e extensão. "Quando a professora Shara recebe o bastão da professora Bonfim, a diversidade passa a adentrar a universidade de forma muito mais intensa. Temas que antes apareciam de maneira mais tímida tornam-se centrais nas discussões." Ele também relaciona esse movimento ao fortalecimento do Programa de Pós-Graduação em Educação, especialmente com a criação da linha de pesquisa Educação, Diversidade/diferença e Inclusão. "Todas essas ações fortaleceram o movimento do OBIJUVE dentro da Universidade Federal do Piauí e consolidaram um espaço de produção de conhecimento comprometido com a diversidade, a inclusão e os direitos humanos." O inventário em andamento permitiu compreender a dimensão da produção científica construída pelo grupo. "O inventário revelou a potência da produção científica do OBIJUVE. Mais do que quantificar produções, foi possível compreender como o cuidado atravessa a história do Observatório e se transforma em uma prática ética, política e pedagógica." A pesquisa também demonstrou que o grupo exerceu papel fundamental no incentivo dos debates sobre diversidade sexual, gênero, juventudes, direitos humanos e educação inclusiva na UFPI. Ao longo de aproximadamente vinte anos, o OBIJUVE contribuiu para a formação de pesquisadoras e pesquisadores que hoje atuam em instituições de ensino superior e seguem desenvolvendo estudos voltados à inclusão, diversidade e justiça social. Para Weslley, a principal contribuição da tese foi evidenciar que a permanência de jovens universitários depende não apenas do acesso ao ensino superior, mas também da existência de políticas institucionais de cuidado e inclusão. "Não basta garantir o direito de entrar na universidade; é preciso garantir o direito de permanecer, produzir conhecimento e existir com dignidade dentro dela. O cuidado precisa deixar de ser uma ação isolada e passar a constituir uma política institucional permanente." O estudo também propõe reflexões para a formulação de políticas públicas e ações afirmativas voltadas à população LGBTQIA+, especialmente na graduação e na pós-graduação. Os resultados apontam para a necessidade de ampliar estratégias institucionais de acolhimento, permanência estudantil e valorização da diversidade como elemento essencial para uma universidade democrática e socialmente referenciada. Ao analisar a trajetória do OBIJUVE, a tese conclui que o Observatório ultrapassou os limites da produção acadêmica tradicional e firmou-se como um espaço de formação humana, compromisso social e construção coletiva do conhecimento, demonstrando que a universidade pública pode constituir-se como território de acolhimento, resistência e transformação social. Orientação de Weslley Rodrigues A professora Shara Jane Holanda Costa Adad explica que a pesquisa desenvolvida por Wesley está diretamente vinculada a um projeto de longo prazo do Observatório, iniciado em 2021 intitulado "Juventudes, Corpo e Educação no OBIJUVE/NEPEGECI: inventário das pesquisas sociopoéticas produzidas com/entre jovens desde 2010". Segundo ela, o chamado "projeto guarda-chuva" nasceu da necessidade de organizar e disponibilizar um acervo que, ao longo dos anos, tornou-se referência para pesquisadores da área. Ela destaca que esse patrimônio acadêmico foi construído graças à trajetória de diversos pesquisadores, entre eles a professora Maria do Carmo Alves do Bonfim, pioneira nos estudos sobre diversidade na instituição. "Nós já entendíamos que tínhamos um acervo muito significativo, resultado de anos de pesquisa. A professora Bonfim, por exemplo, foi uma das pioneiras nos trabalhos com a diversidade e orientou uma das primeiras dissertações sobre o tema." Ao refletir sobre a construção da tese de Weslley Rodrigues, a professora narra que percebeu a necessidade de estudos que analisassem criticamente o próprio conjunto de pesquisas produzidas pelo grupo. Segundo ela, o acervo reúne investigações sobre corpo, juventudes, diversidade, direitos humanos no contexto da educação constituindo um rico conjunto de práticas discursivas, sendo a abordagem Sociopoética predominante nestes trabalhos. "Eu disse ao Wesley que talvez fosse o momento de termos uma pesquisa que se debruçasse sobre esses saberes produzidos ao longo dos anos. Era um acervo extremamente denso sobre corpo, educação e diversidade, e seria muito importante identificar a potência desse material e mostrar a força da pesquisa acadêmica desenvolvida de forma transdisciplinar, transreferenciada e transseccional." A professora afirma que Weslley Rodrigues acolheu a proposta e realizou uma ampla pesquisa exploratória no acervo antes mesmo do ingresso no doutorado. A partir desse levantamento, identificou que as questões relacionadas à população LGBTQIAPN+ atravessavam grande parte da produção do Observatório e decidiu transformá-las no foco central de sua investigação. "Ele fez um trabalho extremamente ousado. Investigou todo o acervo, identificou aquilo que dialogava com sua trajetória de pesquisa e disse: 'É isso que eu quero estudar'." Segundo Shara, essa maturidade refletiu-se em toda a trajetória acadêmica do pesquisador. Ela lembra que Weslley ingressou no doutorado já com um projeto consistente, concluiu o curso em apenas 24 meses e contou com dedicação quase exclusiva após conquistar uma bolsa de estudos. "Ele chegou ao doutorado já trabalhando na pesquisa. Não foi um projeto que começou depois. Por isso conseguiu concluir em tempo recorde, com muita consistência. Essa dedicação foi construída desde o mestrado." A orientadora afirma que acompanhar essa pesquisa também representou um exercício de reflexão sobre a própria trajetória do grupo de pesquisa. "Orientar o Weslley foi olhar para a nossa própria história. Foi um momento de autoanálise, de cuidado mútuo e de reconhecer tudo o que construímos ao longo desses anos." Ela observa que o pesquisador identificou não apenas o volume de documentos existentes, mas também lacunas importantes nas políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+, especialmente no âmbito da pós-graduação. "Ele percebeu, por exemplo, que as políticas de cotas avançavam nas questões étnico-raciais, mas não contemplavam a população LGBTQIA+. Essa percepção surgiu a partir da leitura cuidadosa do próprio acervo." A professora Shara destaca ainda que o Observatório reúne dezenas de dissertações, teses e trabalhos de conclusão de curso que registram experiências relacionadas aos movimentos estudantis, às ocupações universitárias, às identidades de gênero, à sexualidade, à docência e aos coletivos juvenis. "É um acervo vivo. Temos pesquisas sobre professores gays na educação básica, coletivos estudantis, ocupações universitárias, diversidade, infância, juventude... Tudo isso está documentado e preservado aqui." Para a professora, a riqueza desse conjunto de pesquisas especialmente com as juventudes está justamente em seu caráter transdisciplinar, reunindo contribuições da educação, sociologia, antropologia, história e outras áreas do conhecimento. "Esse grande rizoma de pesquisas chamou muito a atenção dele. Orientá-lo também foi revisitar a minha própria trajetória e todas as práticas que fomos construindo ao longo dos anos." Ela ressalta ainda a autonomia intelectual de Weslley durante todo o percurso acadêmico. Além das atividades do mestrado e doutorado, buscou formação complementar com pesquisadores de referência nacional e internacional nos campos dos estudos de gênero, sexualidade e historiografia. "Desde o início ele se mostrou um pesquisador extremamente autônomo. Fez muitos cursos, estudou autores fundamentais da área e sempre buscou ampliar sua formação para além das exigências do programa." Outro aspecto destacado foi a capacidade do pesquisador de incorporar novas metodologias de investigação, especialmente aquelas desenvolvidas durante o período da pandemia. "Quando fomos obrigados a pesquisar no ambiente virtual, ele foi um dos meus orientandos que trouxe contribuições importantes sobre etnografia digital e novas possibilidades metodológicas. Isso fortaleceu muito as nossas práticas de pesquisa." Segundo a professora Shara, todas essas experiências estão fundamentadas em um compromisso ético com grupos historicamente invisibilizados. "Trabalhamos com pessoas empobrecidas, não pobres; pessoas invisibilizadas, não invisíveis. Essa diferença é fundamental porque revela processos estruturais e históricos de exclusão. Fazer pesquisa também é um exercício de cidadania." Ao concluir, a professora afirma que orientar Weslley significou acompanhar a formação de um pesquisador comprometido com a educação, a diversidade e a transformação social. "Foi uma honra orientar o Weslley. Ele é extremamente organizado, comprometido com a educação do corpo diverso, como costuma dizer. Atua no teatro, na dança, trabalha com crianças e é profundamente admirado por colegas e professores. Eu aprendi muito com ele durante esse processo." Sobre o OBIJUVE O Observatório das Infâncias e Juventudes na Educação (OBIJUVE) consolidou-se, ao longo de duas décadas, como um espaço de estudos, pesquisas e formação voltado às infâncias, juventudes e à promoção da cidadania na Universidade Federal do Piauí (UFPI). Criado em 2006, o observatório surgiu inicialmente sob a coordenação das professoras Maria do Carmo Alves do Bonfim e Rosa Macedo, que conduziram os primeiros anos de atuação do grupo e lançaram as bases para o desenvolvimento de pesquisas na área das juventudes e educação. A coordenadora do OBIJUVE relata que o observatório ultrapassa a ideia de um espaço físico e se constitui como um ambiente de construção coletiva. "O Observatório das Infâncias e Juventudes na Educação é um espaço-tempo de exercício da cidadania. Trabalhamos com estudos e pesquisas com/entre as juventudes e infâncias numa perspectiva da Sociopoética e da simpoiése que significam produzir conhecimento coletivo e ficar com, respectivamente. Desde 2009, a professora Shara Jane assumiu a coordenação do observatório e iniciou um processo de ampliação das temáticas investigadas. Até então, as pesquisas concentravam-se principalmente nas violências no contexto escolar. Com a nova coordenação, o grupo passou a incorporar discussões sobre convivência, cuidado e acolhimento, ampliando o olhar para outras formas de compreender as relações humanas na educação. "Passamos a ampliar esse foco para as dimensões da convivência, do cuidado de si, do cuidado do outro, pensando sempre na possibilidade de outros mundos possíveis", destaca a professora. Ela explica que a proposta do observatório sempre foi desenvolver ações de forma colaborativa, valorizando a construção conjunta de conhecimentos e experiências. Ressaltando novamente que "nossa ideia sempre foi 'ficar com' e 'fazer com', criando modos de operar nesse espaço de forma coletiva." Para a coordenadora, embora o observatório possua uma sede física, sua atuação vai muito além das paredes da universidade. "É um espaço que pudesse ser ampliado para toda a universidade, para todas as pessoas que fazem parte dessa comunidade chamada UFPI, em especial do Centro de Ciências da Educação", ressalta. Outro marco importante ocorreu em 2010, quando a professora Shara Jane passou a integrar o Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPI. A inserção fortaleceu o vínculo entre o observatório e a pós-graduação, ampliando as possibilidades de produção científica e formação de pesquisadores. "Foi muito importante porque os estudos e pesquisas desenvolvidos na pós-graduação se somaram às nossas proposições e aos nossos propósitos. O observatório passou a ser também um espaço de estudos e pesquisas sobre convivência, acolhimento e abrigo", conclui a professora.