Sementes de fava-d'anta (Dimorphandra mollis)
Uma pesquisa de doutorado defendida na Universidade Federal do Piauí (UFPI) traz novos dados sobre a Dimorphandra mollis Benth., conhecida popularmente como fava-d'anta, árvore nativa do Cerrado e da Caatinga que ocupa uma posição estratégica e pouco reconhecida pelo público em geral, na cadeia produtiva global de fármacos e cosméticos. É dela que sai aproximadamente metade de toda a rutina consumida no mundo, um bioflavonoide amplamente empregado por essas indústrias.
A tese "Caracterização de progênies de Dimorphandra mollis Benth. provenientes do sul do Piauí, Brasil" foi defendida em 16 de abril deste ano por Kennedy de Paiva Porfírio, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias da UFPI, sob orientação do professor Antônio Carlos Ferraz Filho, do curso de Engenharia Florestal do Campus Professora Cinobelina Elvas (CPCE), em Bom Jesus, e coorientação da professora Séfora Gil Gomes de Farias.
Na foto, Kennedy de Paiva Porfírio, seu orientador professor Antônio Carlos Ferraz Filho, a professora Andressa Ribeiro e o professor Silvokleio da Costa Silva
Uma trajetória de pesquisa com espécies nativas
O interesse de Kennedy pela fava-d'anta não começou no doutorado. Desde a graduação ele pesquisa espécies nativas do Cerrado com relevância econômica, ambiental e social. A escolha específica da fava-d'anta, no entanto, foi construída em conjunto com o orientador e a coorientadora, muito em razão do estado de risco da espécie.
"A escolha da fava-d'anta no doutorado foi feita em conjunto: eu, meu orientador Dr. Antônio Carlos Ferraz Filho e minha coorientadora, professora Dr.ª Séfora Gil Gomes de Farias, devido à sua importância econômica e social e, principalmente, pela conservação da espécie, pois ela se encontra em risco devido a ações antrópicas e erosão genética", conta Kennedy.
Para o orientador Antônio Carlos Ferraz Filho, acompanhar a trajetória de Kennedy ao longo do doutorado reforçou o valor de formar pesquisadores na própria região onde atuam. "O Kennedy demonstrou muita independência, conseguia assimilar os trabalhos muito bem, que é o que você espera de um aluno de doutorado, e conseguiu gerar um bom trabalho. Por ele ser da região aqui de Bom Jesus, e ter feito o mestrado no Espírito Santo, é bem gratificante ver um aluno voltar para concluir o doutorado. No Brasil, é muito raro conseguir formar um doutor no interior, igual a gente tem aqui", destaca o professor.
Uma espécie sem cultivo e sob pressão
Apesar da relevância econômica, toda a produção comercial de rutina a partir da fava-d'anta ainda depende do extrativismo em populações naturais: não existe cultivo estabelecido da espécie. Esse modelo, somado ao desmatamento e às queimadas recorrentes no Cerrado, tem elevado os riscos de erosão genética, que é a perda da diversidade genética que sustenta a capacidade da espécie de se adaptar e sobreviver ao longo do tempo.
Foi para enfrentar essa lacuna de conhecimento que Kennedy estruturou sua tese em três capítulos complementares. O primeiro capítulo fez uma revisão sistemática e uma análise bibliométrica de tudo que já se publicou sobre a D. mollis entre 2004 e 2025, a partir de 19 artigos levantados nas bases Scopus e Web of Science. O objetivo, segundo Kennedy, era "elucidar o estado da arte da pesquisa a respeito da espécie e demonstrar como a pesquisa havia parado ao longo do tempo, e quais as lacunas existentes", achado tão relevante que já está sendo transformado em artigo científico à parte.
Cruzando esses dados com o Inventário Florestal Nacional, a pesquisa mostrou que a frequência de encontrar a espécie em “áreas de ocorrência” em parcelas de amostragem no Cerrado é de apenas 3,97%, com densidade média de 63 indivíduos por hectare, a maioria concentrada nas menores classes de diâmetro, sinal de que o recrutamento de árvores jovens para a fase adulta está comprometido.
Ao ser perguntado por que uma espécie tão importante economicamente ficou tanto tempo fora do radar da ciência, Kennedy reflete: "Fazer pesquisa hoje não é fácil, existem muitas barreiras, como logística, insumos e análises, e quando se trata de espécies nativas essa dificuldade aumenta. Outro ponto é que, quando os pesquisadores terminam uma parte da pesquisa, ela fica engavetada até outro pesquisador se interessar novamente pela espécie."
O segundo capítulo, núcleo da tese, estimou parâmetros genéticos quantitativos a partir de um teste de progênie com sementes de 72 árvores matrizes de quatro populações do Piauí. Os bastidores dessa etapa revelam um dado curioso, ligado à própria urgência da pesquisa: a equipe não foi diretamente a campo fazer a coleta em São Gonçalo do Gurguéia, já que a área seria suprimida para a instalação de uma usina fotovoltaica. Ainda assim, a coleta manteve o rigor metodológico, os frutos com sementes foram colhidos diretamente em cada árvore matriz, todas devidamente identificadas e georreferenciadas antes da supressão florestal, com o material sendo posteriormente encaminhado à equipe da universidade.
A partir daí, o trabalho de campo, conduzido no Campus de Bom Jesus, levou quatro anos: da produção de mudas à condução em viveiro, passando pela rustificação até a implantação em campo, com um ano de pesquisa em laboratório rodando em paralelo. As plantas foram avaliadas em altura e diâmetro do coleto aos 30, 90, 150, 480 e 570 dias após a semeadura, com os parâmetros estimados pelo método REML/BLUP.
Kennedy no Viveiro Florestal do Campus Professora Cinobelina Elvas (CPCE), em Bom Jesus
Imprevistos não faltaram. "Teve muitos, clima com altas temperaturas na fase de campo, exigindo irrigações periódicas; falta de equipamentos para as análises moleculares, que quebravam durante o uso ou estavam em manutenção e dificuldade na aquisição de reagentes específicos para certas análises. Enfim, o que a gente enfrenta na pesquisa diariamente", relata Kennedy, com bom humor.
Os resultados, porém, compensaram o esforço: herdabilidade de moderada a alta (entre 0,21 e 0,84), indicando expressivo controle genético e bom potencial de ganho por seleção. Dez progênies se destacaram por manter ganhos superiores em altura em todas as fases do estudo, e a análise de divergência genética identificou cinco grupos distintos entre as populações. O estudo, publicado na revista Forests, foi pioneiro no Nordeste para essa espécie. "Estudos genéticos para a fava-d'anta aqui no Piauí não existiam", destaca o pesquisador.
Sementes de fava-d'anta (Dimorphandra mollis) organizadas para teste de germinação no Laboratório de Ecofisiologia e Sementes Florestais (LESF), em Bom Jesus
O terceiro capítulo avaliou parâmetros morfológicos de germinação em 67 progênies das mesmas populações, por meio de testes em câmaras BOD e Análise de Componentes Principais, cruzando os dados com os parâmetros genéticos do capítulo anterior. "Eu quis correlacionar dados de desempenho da espécie em laboratório com dados de desempenho em campo", resume Kennedy.
A análise explicou quase 75% da variância total observada, revelando correlação positiva entre germinação e comprimento de raiz, e negativa entre vigor da plântula e contaminação fúngica, um fenômeno que, segundo Kennedy, ainda é objeto de investigação do grupo. "Isso é uma lacuna que a gente está estudando a respeito, para identificar o porquê dessa contaminação fúngica. Ainda não temos nada comprovado, mas é um tópico que seguimos pesquisando", afirma. O achado central do capítulo, porém, já está consolidado: o vigor inicial em laboratório é um bom preditor do desempenho genético a longo prazo, embora a interação entre genótipo e ambiente ainda influencie o resultado final em campo.
Sobre a divisão da tese em três frentes tão distintas, Kennedy resume: "Sempre fui curioso e fiz bastante experimento com a espécie, e nisso consegui gerar uma quantidade relativamente grande de dados. Quis divulgar o máximo possível de informação sobre a fava-d'anta no meio acadêmico, através da tese e dos artigos publicados e outros que ainda estão em fase de publicação."
Conservação como prioridade
Ao reunir os três capítulos, a tese conclui que a fava-d'anta possui potencial genético expressivo, mas segue vulnerável à erosão genética provocada pelo extrativismo predatório e pelo desmatamento. Questionado sobre o que seria necessário, em termos de política pública ou de mercado, para que os achados da pesquisa se transformassem em ação concreta de conservação, Kennedy é direto: "De acordo com os achados da minha pesquisa, saliento que deve ocorrer a manutenção de populações variáveis e geneticamente diversas, constituindo condição indispensável tanto para a conservação da espécie quanto para assegurar o fornecimento de matéria-prima de origem natural destinada à indústria."
Na mesma linha, o orientador reforça a relevância do trabalho para a conservação da espécie: "A gente conseguiu abordar a variabilidade genética dessa espécie, e viu que é possível produzir mudas e plantá-las, ainda que ela não seja uma espécie tão robusta, e a gente tenha tido bastante dificuldade de propagação. Essa caracterização da riqueza genética é fundamental para pensarmos a conservação dela no Cerrado", afirma Ferraz Filho.
Além disso, Kennedy faz questão de destacar duas colaborações que considera decisivas para o resultado da tese, ambas de docentes do Campus Professora Cinobelina Elvas (CPCE): a professora Andressa Ribeiro, pesquisadora do Grupo de Estudos em Manejo Florestal (GEMF/UFPI) e esposa de seu orientador "dividi experiências e aprendi muito com a Andressa, além da bagagem de conhecimento sobre manejo e inventário florestal no bioma Cerrado", diz e o professor Silvokleio da Costa Silva, cuja contribuição foi fundamental nas análises genéticas moleculares.
A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias da UFPI, unindo esforços de genética quantitativa, silvicultura e biometria florestal para ampliar o conhecimento científico sobre uma espécie que, apesar de sua importância econômica e ecológica, ainda carece de estratégias efetivas de conservação no Cerrado brasileiro.