Bárbara Carine participa do Seminário Língua Viva no SaLiPi
Do lado de fora do Cine Teatro da Universidade Federal do Piauí (UFPI), uma fila de pessoas esperava na entrada, em meio ao calor do mês junino que tem presença mesmo durante a noite em Teresina. A ansiedade comum para os aqui ali esperavam desde cedo é para conseguir o melhor lugar e o mais perto o possível do palco para prestigiar a presença de Bárbara Carine. A professora, filósofa, escritora, militante, comunicadora e pedagoga antirracial, é um dos aguardados nomes no Seminário Língua Viva do 24º Salão do Livro do Piauí (SaLiPi).
Na noite da quinta-feira (11), o Cine Teatro encontrava-se lotado de admiradores e seguidores para assistirem e trocarem ideias com Bárbara Carine. Todos ficaram de pé com o anúncio de sua entrada, ao aparecer foi aplaudida e ovacionada. Ao se sentar e se ajeitar para o início da atividade, as primeiras palavras de Bárbara foram para saudar o público. “Boa noite minha gente, vocês tão bem?”, quando recebeu a afirmação dos que estavam à sua frente devolveu: “Estou bem demais de estar aqui com vocês”.
Bárbara Carine teve sua discussão mediada pela professora Shirliane de Araújo Sousa
Antes do início definitivo da sessão, a mediadora que conduziu a sessão, a bióloga e professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Shirliane de Araújo Sousa, fez uma declaração para Bárbara. “Queria te falar olhando nos teus olhos que você é minha influenciadora, você é minha inspiração, você ajuda a construir todo dia a professora que eu sou”, disse de professora para professora e como admiradora. No momento Bárbara abraçou Shirliane, sua declaração poderia ter vindo de qualquer um da plateia, que aplaudiu a cena. A palestra seria de diálogo, conhecimento, troca de experiências, e acima de tudo, afeto.
Teresina era a última capital do Nordeste que faltava para Bárbara visitar em sua peregrinação do conhecimento na região. “Já gabaritei meu país chamado nordeste brasileiro, já fui em todas as capataz só faltava Teresina, estava louca para está aqui com vocês”, conta. Assim a sua visita a Teresina é ainda mais emblemática com sua visita a Universidade Federal do Piauí para participar como uma das palestrantes do Salão do Livro do Piauí.
Trajetória
Filha de Teresina de Jesus, nascida no Quilimbo Mocambo dos Negros, localizado no distrito de Itapura, no munício de Miguel Calmon, na Bahia. Sua mãe se mudou para Salvador, Bárbara e seus irmãos foram criados na periferia da Fazenda Grande do Retiro. Em Salvador, sua mãe era empregada doméstica, ocupação que realizou desde os 9 anos de idade. Bárbara relata que sua mãe viveu durante um tempo em regime análogo a escravidão quando nova. “Minha mãe foi ficando e se viu em regime de trabalho de escravisão contemporânea, saiu fugida desse lugar, depois foi se estruturando nessa periferia de salvador, que continuou trabalhando como doméstica”.
Bárbara relembra que sua bisavó foi escravizada até os 12 anos de idade, sua avó foi lavadeira, e sua mãe empregada doméstica, em condições de trabalho ruins. Sua mãe despertou sobre essa condição, não queria o mesmo para a filha. “Eu preciso romper com esse ciclo, preciso acabar com esse ciclo, não vai ter continuidade, para não ter continuidade ela teve a maior genialidade de todos os tempos, ela não me ensinou o ofício”, Bárbara coloca-se no lugar de sua mãe. Teresinha pensava em trilhas diferentes para os seus filhos, para Bárbara pensou em outra caminho, o caminho da sabedoria e do conhecimento. “Carine vai pegar em livros e não em vassouras”, lembra as fortes palavras da mãe.
Quando era o momento da faxina da casa, seus irmãos ficaram revoltados por verem Bárbara, ir no sentido contrário, para o seu canto com um livro embaixo do braço. A sua mãe logo a defendia “Deixe ela que ela está lendo!”, disse Bárbara em tom humorado junto com a risada da plateia. A leitura foi fundamental em sua vida, mesmo sem referências negras no início, ajudou-a ver o mundo de outra forma. Bárbara fez analogias para explicar a importância de ler e estudar, usou a fórmula de Bhaskara para explicar que conhecer o conceito ajuda a desenvolver instrumentos do pensamento que surgem a partir de processos matemáticos. Com a Filosofia explicou que aprendemos a desenvolver uma estrutura argumentativa e crítica. Em uma de duas áreas de formação, na Química, trouxe o exemplo do modelo atômico, que ajuda a entender e explicar o universo. “Na leitura é a mesma coisa, a gente lê para desenvolver a humanidade em nós, eu me desenvolvi gente, lendo, e a minha inteligência lendo também”, conta agradecendo a prática da leitura.
O clima da palestra era leve, as histórias da vida de Bárbara eram contadas com um tom que não se apega apenas a episódios negativos, mas de satisfação do agora. Quem assistia ouvia com atenção, a troca era amistosa e calorosa.
Educação superior
Na academia, ingressou no curso de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 2007, nesta fase teve vários desafios. A academia não era acolhedora, não se sentiu pertencente devido ao racismo comum de um espaço majoritariamente branco, ainda havia outras preocupações da vida, mas ela não parou, continuou seguindo em frente. “As dificuldades subjetivas moldaram a minha identidade como intelectual”, conta. Se formou e tornou-se doutora aos 27 anos, quebrando uma sequência familiar de gerações de mulheres que não tinham o ensino básico, contudo, apesar da vitória, sentia que precisava ir além.
Foi professora efetiva da UFBA, depois cursou o doutorado em Ensino, Filosofia e História das Ciências da UFBA e Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). A partir daí a professora passou a se dedicar às perspectivas decoloniais de ensino, que negam as premissas colonialistas e todos os padrões de colonialidade que estão impregnados na educação de base eurocêntrica. Adotando uma perspectiva desconstruindo falácias e mitos, como a ideia de que os povos africanos não possuíam os próprios sistemas matemáticos, químicos, arquitetônicos e medicinais, uma ciência e história apagadas pela forma europeia de contar os saberes.
Ensino decolonial
Os saberes afrocentrados culminaram na idealização de um projeto educacional em 2017 da Escolinha Maria Felipa, a primeira instituição de ensino afro-brasileira registrada no Ministério da Educação. A instituição valoriza a cultura afro-brasileira e de ensino decolonial desde a educação infantil. Bárbara atua na instituição como sócia, fazendo consultoria pedagógica Hoje a Escolinha Maria Felipa conta com sedes em Salvador - BA e no Rio de Janeiro - RJ.
Na educação Bárbara expôs seus saberes em uma educação crítica-decolonial também com publicação de obras com o objetivo de inserir na educação uma linguagem e conduta antirracista.
Um dos seus livros mais emblemáticos surgiu de uma ideia do cônjuge, ator e músico Thiago Thomé, que Bárbara lembra com ele expôs de forma simples a ideia para ela. “Você precisa escrever um livro chamado, ele deu um nome, a pessoa me da a sugestão e nome da coisa, chamado ‘Como ser um educador antirracista’”, relembra as falas de Thiago. De início Bárbara não gostou da ideia por ser um pouco distante de sua atuação, na época mais centrada na Química, em ciência e divulgação científica africana. “Não me sintia confortável para escrever sobre educação antirracista porque não sou pedagoga”. Thiago usou o argumento sobre a idealização feita por Bárbara de sua experiência na pedagogica na Escola Maria Felipa, Bárbara se convenceu, e em 2022 escreveu a obra premiada
A partir de questões levadas pelos seus seguidores nas redes socias sobre o tema Bárbara comecou a estruturar a obra que deu origem ao livro “Como ser um educador antirracista: Para familiares e professores” publicado em 2023. A obra discute como a educação e a escola podem ser pensadas a partir de perspectivas não ocidentalizadas e, sobretudo, racializadas. O impacto da obra foi grande, sendo vencedor do Prêmio Jabuti 2024, a premiação literária mais tradicional e prestigiada do Brasil.
Um ponto de discussão do livro é sobre o letramento racial, definido o que é raça, racismo estrutural e racismo como crime. A branquitude é amplamente explorada que Bárbara destrinchou, diferenciando o conceito da personificação, desvio comum que as pessoas fazem sobre o tema. “Quando a gente faz a crítica a branquitude, que muitas pessoas personificam não é sobre isso, não é sobre você, é sobre o sistema que te beneficia unilateralmente, e benefício unilateral não é direito é privilégio, e para alguém ter privilégio alguem ta tendo ausência de direito”, destaca.
“A branquitude é um sistema de privilégio que precisa ser exterminado a pessoas branca a gente que como aliada na luta antirracista, que são distinto, o sujeito branco é nele que se manisfesta a branquitute, mas a branquitutde é outra coisa”, destaca.
O livro direciona um conjunto de pessoas responsáveis pela educação integrada nas escolas, pais e educadores, em práticas de reação em casos de racismo e formas de implementar uma educação que desconstrói condutas preconceituosas e racista na escola.
Além da pauta racial a obra aborda outros conceitos de diversidades, empenhando na luta anti capitalista, anti machista, contra a homofobia e entre outras. Estes são pontos defendidos para a melhoria da escola básica, defendido pela professora.“A melhoria da escola básica é uma política pública de médio e longo prazo, requer melhorias na estrutura, revisão de currículo, revisão literária, formação de professores, investimentos na melhoria salarial destes profissionais da educação”, explica.
Bárbara destacou a sua última obra publicada, o livro “Raça Social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira", lançado em neste. A obra contribui para os debates crescentes acerca da identidade racial brasileira, a partir do acúmulo histórico, político e epistêmico dos movimentos negros organizados. A escritora fala que esse foi o texto que mais lhe exigiu energia para escrevê-lo. “Foi a escrita mais difícil da minha vida, mas sem sombras de dúvida e também sem modéstia alguma, a escrita mais genial”, elogiou o próprio trabalho no qual colocou muita dedicação e esforço.
A intelectual, possui mais de 10 livros publicados com foco na educação antirracista, decolonização de saberes, protagonismo e história de pessoas negras na ciência e na sociedade, além da pedagogia emancipatória. O do instrumento de limpeza para um livro possibilitou a uma mulher preta escrever, inspirar, educar e acolher. Outros escritores que vão inspirar você estão na programação do 24ª Salão do Livro do Piauí (SaLiPi).
Veja a palestra completa de Bárbara Carine e outros escritores no espaço Língua Viva no canal do YouTube da Fundação Quixote.