A Universidade Federal do Piauí (UFPI) amplia o acesso de crianças à ginástica rítmica por meio do projeto de extensão Ginástica Rítmica na UFPI, que oferece gratuitamente aulas de iniciação esportiva para meninas de 5 a 10 anos. Coordenada pela professora Regina Célia Vilanova Campelo, do Departamento de Educação Física, a ação atende atualmente cerca de 80 crianças e tem entre seus objetivos promover a inclusão social, contribuir para a formação esportiva e identificar novos talentos na modalidade.
Criado em 2024, o projeto é desenvolvido em parceria com a Federação de Ginástica do Piauí (FEGINPI) e a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). As atividades são realizadas duas vezes por semana, com encontros de uma hora, e 60% das vagas são destinadas a crianças matriculadas na rede pública de ensino. Além da iniciação aos fundamentos da modalidade, as participantes aprendem movimentos corporais, coreografias e o manejo de aparelhos como corda, arco, bola, maças e fita.
Professora Regina Célia Vilanova Campelo, coordenadora do Projeto - Foto: Arquivo Pessoal
A iniciativa busca contribuir para a democratização de uma modalidade que ainda possui oferta limitada no Estado. “Uma das metas é justamente a massificação da modalidade, a inclusão social e a descoberta de talentos”, explica a professora Regina Célia.
Um esporte que combina técnica, música e expressão
Para quem observa uma apresentação de ginástica rítmica pela primeira vez, a modalidade pode parecer apenas uma sequência de movimentos acompanhados por música. Mas, por trás das coreografias, existe um conjunto de habilidades que envolve coordenação motora, força, flexibilidade, ritmo, equilíbrio, percepção espacial e controle corporal.
Aulas do Iniciação à Ginástica Ritmica
Na iniciação, as crianças começam pelos movimentos corporais e pelo trabalho de “mãos livres”. Conforme avançam, passam a aprender o manejo dos aparelhos oficiais da modalidade: corda, arco, bola, maças e fita. Os exercícios incluem lançamentos, rolamentos e outros movimentos que exigem domínio do corpo e dos aparelhos. Por isso, a prática também demanda espaço adequado para que as crianças possam desenvolver as habilidades com segurança. “Na iniciação nós temos mãos livres e algumas meninas começam também com o manejo dos aparelhos”, explica a Coordenadora do Projeto, Regina Celia.
As atividades também estimulam a memorização de sequências coreográficas e o reconhecimento de passos, movimentos e diferentes formas de utilização dos aparelhos. Segundo a coordenadora, esses aspectos podem refletir no desenvolvimento das crianças para além da quadra. “Tudo isso acaba influenciando no processo de aprendizagem”, afirma.
Regina relata que familiares já perceberam mudanças na concentração e na atenção das crianças depois que começaram a participar das aulas. O projeto também recebe crianças com diferentes perfis de aprendizagem, que são acompanhadas durante as atividades.
Quando a criança encontra uma oportunidade
Emanuele Santos, aluna do Projeto
A história de Emanuele Santos mostra como o acesso gratuito pode aproximar crianças de uma modalidade que, de outra forma, talvez não fizesse parte de suas experiências. Quando perguntada sobre o projeto, a menina não hesita ao explicar por que gosta de participar das aulas. Aos cinco anos, ela já demonstra entusiasmo pelas apresentações e está aprendendo os movimentos básicos da modalidade. Para ela, a preparação para as atividades também faz parte da diversão. “Eu gosto muito de fazer apresentação”, diz.
O interesse das crianças é justamente um dos aspectos que mais chamam a atenção da coordenadora. Segundo a coordenadora Regina Celia, a procura pelo projeto cresceu desde sua criação e, atualmente, é necessário realizar testes quando novas vagas são abertas. “Quando a gente começou, eram poucas crianças. Hoje a procura é muito grande”, explica.
Para algumas famílias, o projeto representa uma oportunidade que não existia
Emanuele com a mãe Claudiane
A relação da aluna Emanuele com a ginástica rítmica começou ainda em casa, onde, desde pequena, fazia piruetas e cambalhotas. “Todo mundo lá em casa dizia: essa menina tem talento”, lembra a mãe, Claudiane Lima. Sem condições de pagar aulas particulares, a família encontrou no projeto da UFPI a oportunidade que procurava. “Eu dizia: ‘Manu, você não quer fazer balé?’. Ela dizia: ‘Eu quero é ginástica’”, conta. Após ser aprovada no teste, Emanuele passou a frequentar as aulas, acompanhada pela mãe, que se emociona ao perceber sua evolução. “Eu sinto orgulho, emoção mesmo, de ver ela se desenvolver.”
A história também ilustra a proposta de inclusão do projeto: permitir que crianças interessadas no esporte possam ter contato com a modalidade independentemente da condição financeira das famílias.
Da iniciação às competições
Festival Aberto de Ginástica do Piauí, realizado em novembro de 2025, no Ginário de Badminton da UFPI - Foto: Arquivo do Projeto
Embora a proposta inicial seja a iniciação esportiva, o projeto também abre caminhos para que algumas crianças avancem para apresentações e competições. Ao longo da iniciativa, algumas participantes foram preparadas para representar o Piauí em eventos esportivos, incluindo o Torneio Regional Nordeste de Ginástica Rítmica, realizado em São Luís, no Maranhão, e os Jogos Escolares.
A participação em competições também permite que as crianças conheçam uma dimensão diferente da modalidade. O que começa com movimentos básicos e coreografias pode evoluir para experiências esportivas em âmbito regional. No Piauí, a ginástica rítmica integra os Jogos Escolares Piauienses (JEPIs), ampliando o espaço da modalidade no calendário esportivo escolar do estado. O movimento também se insere em um cenário regional. Competições de ginástica rítmica reúnem atletas dos diferentes estados nordestinos, formando um circuito que permite às jovens ginastas vivenciar disputas, apresentações e intercâmbio esportivo.
Festival Aberto de Ginástica do Piauí - Foto: Arquivo do Projeto Ginástica Ritmica na UFPI
Segundo a coordenadora Regina Celia, algumas meninas que completaram 10 anos — idade limite para permanência no projeto — chegaram a ser preparadas para representar o estado em competições por apresentarem potencial e interesse na continuidade da prática.
Uma trajetória de 53 anos dedicada à ginástica
Professora aposentada do IFPI, Ana Lourdes de Freitas Santos, é voluntário no Projeto da UFPI
Dentro do projeto, a experiência de quem acompanha a modalidade há décadas se soma à formação universitária. Professora aposentada do Instituto Federal do Piauí (IFPI), Ana Lourdes de Freitas Santos atua voluntariamente no projeto e acompanha as turmas durante as atividades. Sua relação com a ginástica rítmica começou em 1973. São 53 anos de trabalho dedicado à modalidade. É considerada a pioneira na implantação e no desenvolvimento da Ginástica Rítmica (GR) no Piauí.
Mesmo aposentada há bastante tempo, Ana Lourdes conta que nunca deixou de trabalhar com a ginástica. Ao longo desse período, desenvolveu atividades em diferentes bairros e comunidades e acompanhou gerações de crianças que começaram pequenas e depois chegaram às apresentações e competições. Atualmente, ela participa das atividades do projeto, acompanhando as crianças no trabalho de mãos livres e no manejo dos aparelhos. Também contribui para a preparação das meninas para apresentações e competições.
Para Ana Lourdes, acompanhar o desenvolvimento das crianças continua sendo uma experiência de realização pessoal. “É só felicidade. A gente vê essas criaturinhas de cinco anos fazendo o trabalho”, conta.
Universidade também é espaço de formação
Além do atendimento às crianças, o projeto amplia as possibilidades de formação dos estudantes de Educação Física. Alunos do curso de bacharelado já realizaram estágio obrigatório junto às turmas, tendo contato com uma modalidade que ainda possui pouca oferta de profissionais especializados no estado.
Para a coordenadora Regina, essa experiência é importante porque amplia o repertório dos futuros profissionais. “A formação em Educação Física é muito ampla. A gente fica o tempo todo dizendo aos nossos alunos da importância de aprender uma nova modalidade”, destaca.
A participação dos estudantes também contribui para a continuidade do conhecimento sobre a ginástica rítmica. Como a oferta da modalidade ainda é restrita, formar novos profissionais é um dos desafios para ampliar o acesso ao esporte. Segundo a coordenadora, alguns estudantes que passaram pelo projeto conseguiram se destacar profissionalmente justamente por terem adquirido experiência com a modalidade.
Uma modalidade que ainda busca espaço no Piauí
Apesar do crescimento da participação em competições e da presença em eventos escolares, a ginástica rítmica ainda enfrenta desafios para ampliar sua oferta no Piauí. Para Regina, a procura existente demonstra que há interesse das crianças e das famílias, mas nem sempre existem espaços, profissionais e oportunidades suficientes para atender essa demanda. “É uma prática muito diferente aqui para o nosso Estado. A procura é muito grande, mas nem sempre existe a oferta”, afirma.
O projeto surge, nesse contexto, como uma alternativa para aproximar a modalidade da comunidade e, ao mesmo tempo, fortalecer sua presença dentro da universidade. A parceria com a FEGINPI e a CBG também amplia as possibilidades de participação das crianças em atividades e eventos relacionados à modalidade.
Aprender, apresentar e sonhar
Aluna Sarah Raphaelly Sousa Nunes, 8 anos
Ao longo do ano, as crianças têm a oportunidade de transformar o que aprenderam em apresentações. O projeto realiza o Festival de Talentos Jovens Promessa de Ginástica Rítmica, que reúne familiares e amigos para acompanhar as coreografias preparadas para as participantes do projeto. O festival representa um momento de celebração, mas também funciona como uma etapa importante do processo de aprendizagem. As crianças desenvolvem a segurança para se apresentar diante do público, exercitam o trabalho coletivo e percebem a própria evolução. Para algumas, pode ser apenas uma experiência esportiva. Para outras, pode representar o primeiro passo de uma trajetória mais longa. É o caso de meninas que já demonstram interesse em continuar treinando, participar de competições e, quem sabe, seguir profissionalmente no esporte.
Na quadra da UFPI, o trabalho começa com movimentos simples, passos básicos e brincadeiras com o corpo. Aos poucos, surgem as fitas, bolas, arcos, maças e cordas. Surgem também as primeiras apresentações, as primeiras competições e, principalmente, novas possibilidades. Para Regina, identificar essas possibilidades faz parte do propósito do projeto. “Você tem meninas aqui que sonham em ser ginastas e a gente consegue ver a evolução. A gente consegue identificar algumas meninas que têm um pouco mais de habilidade”, afirma.
Emanuele mostra seu movimento preferido: a ponte
Aos cinco anos, Emanuele ainda está dando os primeiros passos. Mas já sabe uma coisa: gosta de estar ali.
“Eu gosto muito de vir pra cá e não quero mais sair daqui.”