
Na foto, Leonardo Davis Rocha Neiva ao lado do orientador, o professor Cássio Miranda, e demais membros de banca avaliadora
Estudo desenvolvido no Mestrado em Saúde da Família aponta que a qualificação da assistência e o fortalecimento da atuação multiprofissional são fundamentais para o cuidado de pacientes com diabetes e ansiedade.
A ansiedade pode representar um obstáculo importante para o tratamento de pessoas com diabetes, interferindo na adoção de hábitos saudáveis, no uso correto da medicação e na adesão ao acompanhamento em saúde. Com o objetivo de compreender como esse desafio é enfrentado na Atenção Primária, uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família da Universidade Federal do Piauí (UFPI) investigou a atuação dos profissionais da Estratégia Saúde da Família no manejo da ansiedade em pessoas com diabetes.
Desenvolvido pelo enfermeiro Leonardo Davis Rocha Neiva, o estudo ouviu médicos, enfermeiros e cirurgiões-dentistas que atuam em Unidades Básicas de Saúde dos municípios de Matões e Parnarama, no Maranhão. A pesquisa identificou que os profissionais reconhecem a ansiedade principalmente por meio da escuta clínica e da observação de sinais emocionais e comportamentais, utilizando a orientação e a educação em saúde como principais estratégias de cuidado.
Além disso, o trabalho evidenciou desafios que ainda dificultam uma assistência mais efetiva, como a ausência de protocolos específicos para o manejo da ansiedade em pessoas com diabetes, a limitação no acesso aos serviços de saúde mental e a necessidade de fortalecer a articulação entre diferentes profissionais da rede de atenção.
Pesquisa surgiu da prática profissional
Segundo Leonardo, a ideia da pesquisa nasceu da própria experiência na Atenção Primária à Saúde. Durante sua atuação profissional, ele percebeu que o acompanhamento de pessoas com diabetes era frequente nas Unidades Básicas de Saúde, enquanto os usuários com demandas relacionadas à saúde mental costumavam ser encaminhados para serviços especializados.
"Através da minha experiência profissional, percebi que havia muitos atendimentos a pacientes com diabetes e poucos atendimentos relacionados aos usuários da saúde mental na Atenção Primária à Saúde. Em conversa com o orientador, tivemos a ideia de relacionar as pessoas com diabetes que também sofrem de ansiedade", explica.
A proposta foi amadurecida durante o desenvolvimento do mestrado. De acordo com o orientador da pesquisa, professor Cássio Eduardo Soares Miranda, a delimitação do objeto revelou um problema cada vez mais presente na rotina dos serviços de saúde.
"Chegamos à constatação de que a problemática da saúde mental, por ser uma problemática urgente, emergente, seria a melhor para tratar."
Para o docente, o estudo buscou compreender como os profissionais da Estratégia Saúde da Família conduzem o atendimento às pessoas com diabetes que também apresentam sintomas de ansiedade.
"O trabalho do Leonardo foi em torno disso: tentar identificar quais são as estratégias que os profissionais de saúde utilizam no manejo da ansiedade em pessoas com diabetes mellitus."
Ansiedade pode comprometer o tratamento do diabetes
As mudanças exigidas pelo tratamento do diabetes vão além do controle da glicemia. A adoção de novos hábitos, como alimentação equilibrada, prática de atividade física e uso regular da medicação, pode representar um desafio para muitas pessoas e influenciar diretamente a saúde emocional.
Segundo Leonardo Davis Rocha Neiva, essa dificuldade de adaptação pode favorecer o desenvolvimento ou agravamento de quadros de ansiedade, comprometendo também a continuidade do tratamento.
"A interferência ocorre porque há mudanças no estilo de vida dos pacientes com diabetes, como alimentação adequada, uso diário da medicação e prática regular de atividade física. Alguns usuários apresentam dificuldades para modificar suas rotinas, o que pode contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de quadros de ansiedade."
Na avaliação do endocrinologista André Gonçalves, a ansiedade também interfere na adesão ao tratamento, principalmente quando o paciente abandona hábitos importantes para o controle da doença.
"O paciente com mais ansiedade tende a falhar mais no tratamento porque tende a abandonar tratamentos, principalmente a mudança de alimentação. Muitas vezes acaba usando a comida como válvula de escape em momentos de ansiedade."
Atenção Primária como porta de entrada
Durante as entrevistas com os profissionais da Estratégia Saúde da Família, Leonardo identificou que o reconhecimento da ansiedade ocorre principalmente por meio da escuta clínica e da observação dos pacientes. Entre as principais estratégias utilizadas estão a orientação e a educação em saúde.
"As principais estratégias são a orientação e a educação em saúde para o manejo da ansiedade. Essas estratégias podem contribuir para reduzir a ansiedade e melhorar a adesão ao tratamento."
O estudo também aponta que o cuidado tende a ser mais efetivo quando diferentes profissionais atuam de forma integrada. Para o endocrinologista, essa abordagem amplia o acolhimento e fortalece o acompanhamento das pessoas com diabetes.
"É fundamental que os pacientes tenham orientação adequada e acompanhamento não só médico, mas multiprofissional."
Desafios para qualificar o cuidado
Além de identificar as estratégias utilizadas pelas equipes da Estratégia Saúde da Família, o estudo também evidenciou obstáculos que dificultam o acompanhamento de pessoas com diabetes e ansiedade. Entre eles estão a ausência de protocolos específicos para orientar o manejo desses pacientes, o acesso limitado aos serviços de saúde mental e a necessidade de organizar melhor os fluxos assistenciais.
Na avaliação de Leonardo, superar esses desafios depende tanto da atuação dos profissionais quanto do fortalecimento das políticas públicas voltadas à Atenção Primária.
"A mudança deve partir tanto dos profissionais quanto da gestão, por meio da melhoria das ações de educação em saúde, da formulação de protocolos específicos para o manejo dos casos, da organização dos fluxos assistenciais e da ampliação do acesso a profissionais especializados."
Os resultados também reforçam a importância da atuação integrada entre diferentes áreas da saúde, permitindo que as necessidades clínicas e emocionais das pessoas com diabetes sejam acompanhadas de forma conjunta.
Contribuições para o cuidado em saúde
Para Leonardo, a pesquisa pode servir de apoio ao aprimoramento das práticas assistenciais desenvolvidas na Estratégia Saúde da Família e contribuir para a qualificação do atendimento oferecido às pessoas com diabetes.
"A pesquisa pode contribuir para o aprimoramento das práticas assistenciais e para a consolidação de políticas públicas voltadas à qualificação da Estratégia Saúde da Família."
Após a conclusão do estudo, os resultados foram encaminhados aos municípios participantes como forma de subsidiar ações voltadas ao enfrentamento dos desafios identificados durante a pesquisa.
"Espero que os resultados possam ser utilizados para aprimorar o atendimento aos usuários com diabetes e às pessoas que apresentam necessidades relacionadas à saúde mental."
O endocrinologista André Gonçalves destaca que considerar a saúde mental no acompanhamento de pessoas com doenças crônicas pode refletir diretamente na continuidade do tratamento e na qualidade de vida dos pacientes.
"Pacientes com boa saúde mental acabam tendo melhor aderência ao tratamento, melhor suporte e isso se traduz em melhora física também”, conclui.