De best-sellers a adaptações para TV: Raphael Montes reúne fãs no SaLiPi e aborda sua trajetória como autor de sucesso

Bate-papo com Raphael Montes no 24º SaLiPi foi mediado pelo escritor Gustavo Lacombe

A atmosfera era de completa excitação. Os presentes amontoavam-se em uma fila única que serpenteava todo o espaço de fora do Cine Teatro da Universidade Federal do Piauí (UFPI), com inúmeras vozes empolgadas e ansiosas cortando o ar quente daquela tarde de junho. Até o mais desavisado dos observadores notaria algo em comum naquela massa uniforme de pessoas, todas traziam consigo uma variedade interessante de livros, com capas coloridas e títulos empolgantes. Mas o que os motivava a estarem até ali? A resposta é única, almejavam pelo momento de encontrar aquele que fora o responsável por escrever histórias que os mantiveram acordados por noites inteiras. Essa introdução, digna de uma obra de suspense, apresenta Raphael Montes, famoso escritor e roteirista brasileiro conhecido por seus livros de suspense; e um dos grandes nomes presentes no 24º Salão do Livro do Piauí (SaLiPi).

Nascido no Rio de Janeiro em 1990, o autor carrega consigo a formação em Direito, mas foi com a literatura de suspense que Raphael Montes alcançou o sucesso editorial e uma legião de leitores viciados em histórias criminais cheias de reviravoltas chocantes. Como o próprio gosta de se definir, o escritor assume um papel de “arquiteto” no momento da escrita, planejando cada detalhe, cada pista e reviravolta, criando sólidas narrativas que misturam violência urbana, críticas sociais e dramas psicológicos. A união desses elementos culminou nesse momento atual da carreira do romancista, milhares de cópias vendidas e admiradores que lotaram o espaço do Cine Teatro, na tarde de Sábado (13).

Momento atual da Literatura Brasileira

Raphael Montes

Longe de ser uma figura inédita no SaLiPi, sendo essa a sua quinta participação no evento, Raphael Montes iniciou o seminário Língua Viva refletindo sobre a meta de alcançar leitores no mercado editorial nacional e o interesse dos próprios leitores em conhecer mais a literatura do país. “Quando comecei a escrever, eu queria ser lido e posso dizer que atingi esse objetivo, ainda mais na minha maneira de criar histórias. Mas a gente não vivia esse momento em que os brasileiros gostam de ler literatura brasileira e isso é mérito dos professores, bibliotecários, influenciadores e eventos literários que oferecem espaços para os professores divulgarem seus trabalhos”, ressaltou.

No mercado literário desde 2012, ano em que publicou o seu livro de estreia, o escritor descreve o início da carreira como desafiador e repleto de “nãos” no caminho até encontrar mais reconhecimento com a publicação de “Dias Perfeitos”. “Meu segundo romance, na época, foi considerado um livro de muito sucesso e lembro da sensação de conseguir alcançar vários objetivos, que foi ser um autor publicado e com leitores. A partir desse momento, comecei a desenvolver nossos desafios para a minha carreira ", relembrou.

Com apenas 23 anos, Raphael Montes já havia decidido abandonar a carreira jurídica e mergulhar de forma definitiva no universo literário; e durante esse período, o escritor experimentou o sucesso comercial e adaptação de suas obras, mas ainda existem elementos corriqueiros que o fazem vibrar, mesmo depois de tanto tempo. “Sempre que eu recebo a cópia de um novo livro, fico andando com ele, cheirando as suas páginas, é um sentimento enorme de alegria. Mas acho que nada se compara a você estar na rua e encontrar alguém lendo o seu livro, algumas vezes cheguei a parar e perguntar o que a pessoa estava achando”, contou de forma bastante humorada.

Adaptação de suas obras para o audiovisual

Após experimentar o sucesso no mercado literário, o passo seguinte foi levar as suas obras para um novo público, como um novo desafio, que é transformar suas histórias em um roteiro para uma produção cinematográfica. Além de escrever livros, Raphael se consolidou como um dos grandes roteiristas do audiovisual brasileiro. Em 2024, ele fundou a Casa Montes, sua própria produtora focada em criar conteúdos de suspense e terror. Mas o ponto de partida veio bem antes, quando o próprio buscou aprender como realizar esse processo de adaptação. “São mídias diferentes, então procurei saber como se conta uma história nas páginas e nas telas, mas com o mesmo objetivo, que é contar uma boa história. No início, achei que era meio engessado, prometi que não tentaria novamente, mas foram chegando novas oportunidades”.

O maior destaque fica para a série da Netflix, “Bom dia, Verônica”, que saiu primeiramente como livro e depois, pelas mãos do próprio Raphael Montes, que escreveu e produziu, ganhou uma adaptação de sucesso a nível global na plataforma de streaming. A história acompanha Verônica Torres (vivida pela atriz Tainá Müller), uma escrivã da Delegacia de Homicídios de São Paulo. Após presenciar um suicídio chocante em seu trabalho, ela resolve investigar por conta própria a identidade da vítima. No caminho, ela descobre uma rede criminosa gigantesca e assustadora que envolve maridos violentos, fanáticos religiosos e grandes poderosos da política. 

Durante o bate-papo, o escritor destacou a iniciativa da Netflix em adaptar sua obra mais recente, “A Estranha na Cama”, para um filme e o objetivo de escrever de forma concomitante o roteiro para o longa-metragem, como também o final do livro que ainda estava em produção. “Por incrível que pareça, o roteiro é mais fácil de fazer, então depois de finalizar, consegui voltar a minha atenção para o livro e experimentar fazer algumas mudanças, entre elas, um final alternativo”.

Teledramaturgia

Como alguém que cresceu na década de 90, Raphael Montes foi bastante influenciado pela produção das telenovelas nacionais, que são responsáveis por escancarar temas difíceis e levar debates importantes para a sociedade e em 2015, o autor começou os seus primeiros passos no mundo das novelas ao trabalhar como roteirista colaborador de “A Regra do Jogo”, novela das nove criada por João Emanuel Carneiro.

Em 2025, através da plataforma de streaming HBO Max, chega o trabalho de maior destaque de Raphael Montes no formato de telenovela, “Beleza Fatal”, sendo a primeira original da plataforma. A Obra abraça todos os elementos característicos de uma boa teledramaturgia, que vão desde uma vilã com fortes bordões até uma mocinha em busca de justiça. Com a união desses moldes, o escritor conseguiu mostrar que a população brasileira ainda se interessa por novelas, desde que elas tenham cara de novela.

“Foi um desafio bem legal, eu cresci assistindo bastante novelas e inicialmente, queria escrever, mas parecia um sonho impossível, fui escrever os meus livros, até surgir o convite da HBO Max. Beleza Fatal tem elementos muito fortes das novelas tradicionais, dos canais abertos, mas com um ritmo mais rápido, já que são apenas 40 capítulos”, destacou Raphael Montes sobre essa maneira de fazer novelas.

Por onde começar a ler Raphael Montes?

Passeando pelos corredores do SaLiPi, olhando todos os estandes, as obras de Raphael Montes estão presentes em quase todos, mostrando a alta demanda do escritor e o interesse por suas obras. Com 7 romances publicados, com a expectativa de um 8 para o final deste ano, o escritor vem acumulando sucessos assustadores e viscerais, carregados de revelações bombásticas, técnica que ele aprendeu lendo mestres como Agatha Christie e que funciona muito bem tanto na literatura quanto no formato de séries. Mas qual seria o livro ideal, a porta de entrada, para adentrar o universo macabro de Raphael Montes?

“Uma boa porta de entrada é o meu livro O Jantar Secreto, que já de cara apresenta elementos bem assustadores. Mas se você busca algo com um ritmo mais calmo, é Uma Família Feliz e Uma Mulher no Escuro, podem funcionar muito bem”, deixou como recomendação.

As obras de Raphael Montes estão disponíveis para mais de 25 idiomas, mostrando a força da sua narrativa e o interesse genuíno por suas obras, tornando-o um fenômeno da literatura contemporânea. 

Veja a palestra completa e de outros escritores no espaço Língua Viva no canal do YouTube da Fundação Quixote.