
Clara Mello compartilhou reflexões sobre literatura, conhecimento e sua trajetória (Foto: Eduarda Cavalcante)
Antes de saber escrever, Clara Mello já contava histórias e queria ser escritora. Aos oito anos, produziu um livro artesanal para presentear o pai: um caderno ilustrado à mão, com prefácio da professora e apoio da mãe e da avó. Anos depois, a menina que transformava histórias em presentes se tornaria uma das escritoras piauienses mais conhecidas de sua geração.
Neste sábado, durante a programação do Salão do Livro do Piauí (Salipi), na Livraria da Editora da Universidade Federal do Piauí (Edufpi), Clara lançou A Paixão é uma Emergência, obra que reúne poemas sobre amor, paixão e desejo. O livro dialoga com mitologias e com escritoras que abordaram o erotismo e os afetos a partir da perspectiva feminina.
Durante o lançamento, a autora falou sobre o processo de criação da obra, relembrou sua trajetória literária e refletiu sobre os desafios de construir uma carreira artística. Filha de artistas, o humorista e compositor João Claudio, e a cantora e compositora Patrícia Mellodi, Clara destacou a importância do incentivo familiar para que pudesse transformar o desejo de escrever em profissão. “Eu tive sorte de ser incentivada. Sempre recebi apoio dos meus pais”, afirmou.
A Casa de Isabel, romance de estreia, foi publicado quando a escritora tinha 16 anos. Clara avalia que sua produção literária acompanha as diferentes fases de sua vida. “Meus livros são muito diferentes uns dos outros porque fui crescendo junto deles”, disse.

Lançamento teve mediação da diretora da EDUFPI, Jasmine Malta (Foto: Eduarda Cavalcante)
Além da literatura, a escritora atua como compositora, roteirista, palestrante, consultora, professora e ministrante de oficinas. Para ela, a pluralidade é uma das formas de tornar possível uma carreira ligada à escrita. “Dá para viver da escrita se você for plural. Só da literatura, não”, observou.
A autora também revelou que tem retomado a escrita de crônicas, gênero com o qual iniciou sua trajetória, e que pretende explorar mais o humor em seus textos, característica presente em sua personalidade, mas pouco desenvolvida em suas obras até agora. “Estou fazendo um movimento de volta para a crônica. E, junto com isso, está aparecendo mais o humor, que faz parte do meu dia a dia”, contou.
Sobre o conceito de sucesso, Clara apresentou uma definição pessoal construída ao longo dos anos de carreira: “Sucesso é fidelidade ao que você veio fazer nesta encarnação”.
Bate-papo com Clara Mello
O livro que você está lançando hoje no Salipi traz qual proposta para os leitores?
Clara Mello: O livro chama-se A Paixão é uma Emergência. É um livro de poesia, de poemas de amor e de paixão, como o título já diz. É um livro bem obsessivo nesse tema. Também faz referência à mitologia grega e a outras mitologias, então há muitos poemas inspirados nesses universos. Além disso, dialoga com escritoras e poetas que falaram sobre amor, paixão e erotismo do ponto de vista da mulher, como Alice Ruiz, Olga Savary e outras mulheres que vieram antes.
Como tem sido essa caminhada de escrever com um olhar feminino?
Clara Mello: Acho que a consciência de que eu estava escrevendo com um olhar feminino só veio depois, porque a gente vai sendo obrigada a se politizar. Não tem como ser mulher e não politizar a própria existência. Eu estava só escrevendo e, por acaso, tenho um corpo de mulher. Aos poucos, fui percebendo que isso permeia tudo: os acontecimentos e a forma como a gente vê o mundo.
Você começou a escrever muito nova. Como percebe o fato de as pessoas acompanharem seu crescimento como mulher e escritora?
Clara Mello: Tudo aconteceu junto. É engraçado porque minha trajetória é muito heterogênea. Meus livros são muito diferentes uns dos outros porque fui crescendo junto deles. Comecei com um livro infantil porque era criança, depois um juvenil porque era adolescente, depois vieram os livros para jovens adultos. As coisas foram crescendo junto comigo.
Tem a parte difícil, porque acho que tive muita pressa de fazer, publicar e acontecer. Hoje, com 32 anos, consigo ter mais calma e paciência para elaborar os projetos e entender qual é o projeto literário que eu quero construir. Ao mesmo tempo, é bonito perceber que fui crescendo junto dos meus livros. Quase não dá para separar uma coisa da outra.
Ontem encontrei uma leitora que estava com a filha pequena. Ela me mostrou uma foto nossa de quando eu tinha 16 anos. Agora ela tem mais de trinta anos e estava ali com a filha. É bonito ver que fomos nos acompanhando ao longo do tempo.
Você está trabalhando em algum novo projeto literário?
Clara Mello: Eu estou sempre escrevendo. Não consigo viver sem escrever. Mas ainda não estou chamando isso de um livro novo. Estou experimentando, elaborando. Tenho feito um movimento de voltar para a crônica, que foi onde eu nasci como escritora. Tenho muita saudade desse gênero.
Passei por vários gêneros, me demorei na poesia, aprendi muito com ela e agora estou fazendo esse movimento de volta. Também estou permitindo que apareça mais o humor, que sempre existiu no meu dia a dia, mas que eu não explorava tanto nas obras.
Como seus pais influenciaram sua formação artística?
Clara Mello: Não tem como não ter influência. Ser filha de dois artistas me colocou diante da arte e do ofício artístico desde muito cedo. Para além da inspiração criativa, eles me ensinaram resistência. É preciso não só ter talento artístico, mas também vocação para suportar uma carreira de artista.
Aprendi muito com eles a atravessar os altos e baixos sem acreditar demais nem no fracasso nem no sucesso. Somos veículos da arte. Ela passa por nós. Então não é tudo sobre nós, nem quando dá certo nem quando dá errado.
Durante muito tempo, fiz um esforço para me desassociar e entender o que era meu. Tinha medo da comparação. Com a maturidade, percebi que tenho a música e o humor dos meus pais, mas eles também são meus. O humor que existe em mim vem deles, mas é meu também.
O que você tem lido ultimamente?
Clara Mello: Passei um tempo relendo clássicos, principalmente autores portugueses, como Eça de Queirós. Eram livros que eu já tinha lido na faculdade. Agora estou lendo muitas crônicas, justamente por causa desse movimento de retorno ao gênero.
Também acompanho os escritores piauienses. Gosto muito do trabalho do Ítalo Damasceno e da Laís Romero. São meus amigos e também meus ídolos.
A faculdade de Letras influenciou sua forma de escrever e de enxergar a literatura?
Clara Mello: Com certeza. A faculdade me ajudou muito. Não necessariamente para conseguir trabalho, porque minha carreira se construiu de outras formas. Mas me trouxe bagagem, leitura e uma capacidade maior de olhar para a literatura não apenas como criação, mas também como análise.
Sinto saudade de estudar. Estou fazendo uma pós-graduação porque senti falta disso. Eu só acredito no caminho do conhecimento. Existe um projeto de desvalorização do estudo que me preocupa. A gente precisa se perguntar a quem isso interessa.
Quem não nasceu herdeiro só tem o caminho do conhecimento. E não apenas para conseguir emprego. O conhecimento serve para a gente se realizar enquanto ser humano. Saber mais, conhecer mais, é o que dá pulsão de vida.
A universidade e eventos como o Salipi também representam espaços de encontro?
Clara Mello: Com certeza. O processo de escrever é para encontrar o outro. Eu escrevo sozinha, mas, se ninguém me encontrar para me ler, aquilo não tem sentido.
Espaços como a universidade e o Salipi nos ajudam a perceber isso. Eles fortalecem o senso de comunidade e promovem trocas. Acho que tudo o que a gente faz é para encontrar o outro. A vida é uma experiência coletiva o tempo inteiro.