PROFAES/UFPI: Projeto de extensão aproxima Universidade e agricultores no interior do Piauí

O PROFAES do curso de Economia da UFPI atua há mais de 15 anos oferecendo apoio a comunidades rurais e fomentando a extensão universitária.

É no Assentamento 17 de Abril, localizado na região da Chapadinha Sul, que vive seu Zé Laurindo, e pouco mais de 100 famílias que organizam um território onde o cotidiano é marcado por um modo de vida que vai além da convivência com a terra.

O nome é uma menção ao Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1996, quando trabalhadores rurais foram assassinados pela Polícia Militar do Pará. Ao longo desses 30 anos, lutar pela terra e por uma vida digna segue como bandeira inspiradora para outros tantos trabalhadores rurais pelo Brasil.

Em casas como a liderada pelo seu Zé Laurindo, natural de Luzilândia (PI), a relação com a terra atravessa gerações. Ele chegou ao Assentamento 17 de Abril trazendo os conhecimentos sobre o sistema de plantação agroecológico que aprendeu ainda cedo, trabalhando no campo. Com o tempo, Seu  Laurindo foi aprendendo o que a terra ensina para quem tem paciência de escutar. E o que ela ensina é direto. “A terra é como a gente, se tiver se alimentando bem, não precisa de veneno”, diz. 

A experiência de famílias como a de seu Laurindo faz parte da realidade de milhares de trabalhadores rurais organizados pela Reforma Agrária no Brasil. Segundo dados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o movimento reuniu, em 2025, cerca de 400 mil a 450 mil famílias assentadas em todo o país.

Um dos que ajudaram a construir esse lugar do zero foi Seu Meireles, natural do Maranhão. Ele chegou ao assentamento em 2004, quando a terra era totalmente ocupada pela natureza. “Aqui não tinha nada, era só o mato mesmo. A gente criou tudo na mão”, conta, com a tranquilidade de quem já fez as pazes com o esforço que isso exigiu.

Segundo Adilson de Apiaim, agricultor do assentamento, foram as estratégias de desenvolvimento local sustentável e a produção coletiva da comunidade ,como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que impulsionaram uma  “revolução do campo”. O PAA foi criado em 2003, dentro de um grupo de políticas do programa Fome Zero, do governo federal, e pretendia implementar ações nas políticas agrícolas voltadas ao acesso à produção e distribuição de alimentos.

As sementes não vieram na mala, mas chegaram do mesmo jeito, através dos companheiros. “Consegui as sementes através de outros companheiros, de outras comunidades, sementes que a gente já conhecia”,diz o agricultor.

O que a Universidade aprende no campo

Essa troca precisa ser cultivada desde cedo. E dentro do próprio assentamento, já existe quem esteja fazendo isso. Ana Vitória Barbosa, 17 anos, estudante do CETI Lucas Meireles Alves, convive desde a infância com a rotina da agricultura familiar dentro e fora da escola e acredita que o aprendizado sobre a terra vai muito além da produção.  “Aprender desde cedo sobre agricultura familiar e o cuidado com a terra é fundamental para entendermos o valor dos alimentos e de quem os produz. Já conquistamos muito, mas ainda temos um longo caminho pela frente”, ressalta. 

É exatamente esse entendimento que o professor de Economia, Eduardo de Oliveira, tenta levar para dentro da Universidade. Para ele, a extensão rural não é a academia descendo do pedestal para ensinar o povo, é o contrário. “A extensão é a Universidade rompendo os seus muros e se aproximando da realidade e aprendendo com essa realidade da comunidade”, afirma o Coordenador Adjunto do Programa de Formação e Assessoria em Economia Solidária (PROFAES).

Iniciativas como o PROFAES (Programa de Formação e Assessoria em Economia Solidária), existente há mais de 15 anos no curso de Economia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), são exemplos da importância do apoio a comunidades rurais, agricultores familiares e de fomento à extensão universitária.

O caminho citado por Ana Vitória Barbosa também esbarra em desigualdades históricas que atravessam o campo piauiense. “É uma oferta de crédito muito desigual. É uma região marcada por conflito trabalhista, conflito por terra, conflito por água”, cita o professor Eduardo, ao mostrar em sua tese de Doutorado, sobre a territorialização do capital no Cerrado piauiense, que cerca de 95% de todo o crédito rural destinado ao Piauí se concentra em apenas 20 municípios. Exatamente os municípios onde avança o agronegócio no Matopiba (composto pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), na região Sul deste Estado.

“A agroecologia acontece, a agricultura familiar acontece. Nós, que estamos na Universidade, muitas vezes ficamos presos a estudar sempre a mesma lógica de mercado e deixamos de olhar para outros tipos de economia”, diz Murilo Fernandes, estudante da disciplina de Economia Solidária e integrante do PROFAES.

Tirar o aprendizado das quatro paredes e levar para a terra, mostra que o campo não é o oposto do futuro, é parte dele. Para Fabiano Santos, estudante de Agroecologia da UFPI, aproximar a Universidade da realidade das comunidades rurais é justamente o caminho para romper essa lógica. “Você entende todos os processos, tudo que tem por trás, desde o plantio, a colheita, a organização social, a organização política, os movimentos que têm que ocorrer para que a gente possa estar aqui hoje”, comenta.

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