
Paciente de 23 anos já havia passado por duas tentativas sem sucesso e tinha alto risco de morte em caso de ruptura
O Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) realizou um procedimento de alta complexidade para tratar um aneurisma cerebral de grandes proporções em um paciente de 23 anos. A intervenção utilizou um stent diversor de fluxo, tecnologia considerada uma das mais modernas do mundo e ainda pouco acessível na rede pública.
O estudante Carlos Manoel de Sousa Moraes procurou atendimento após perceber um desalinhamento no olho. O que parecia um problema oftalmológico revelou uma condição grave: um aneurisma cerebral de aproximadamente cinco centímetros, localizado próximo ao nervo óptico.
“Pelo tamanho, o aneurisma passou a comprimir meu nervo óptico, por isso eu estava ‘vesgo’. Fui submetido a um primeiro tratamento em outro hospital, mas o aneurisma recanalizou (quando o aneurisma volta a ser preenchido por sangue, aumentando o risco de ruptura)”, detalha Carlos. “Antes de chegar ao HU-UFPI, foi feita uma outra tentativa, dessa vez por meio de embolização com micromolas, o que também não foi suficiente para resolver meu problema”, acrescenta.
Foi então que Carlos foi encaminhado ao HU-UFPI e recebeu a indicação do uso de um stent diversor de fluxo, técnica que utiliza um pequeno tubo metálico de alto custo, ainda não disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

À esquerda, o estudante Carlos Manoel de Sousa Moraes, à direita, o neurologista do HU-UFPI, Marx Barros Araújo.
“Diferentemente das técnicas tradicionais, que atuam diretamente no aneurisma, o stent diversor de fluxo trata a artéria doente, impedindo a entrada de sangue na dilatação. Com isso, o aneurisma tende a regredir ao longo do tempo”, explica o neurologista do HU-UFPI, Marx Barros Araújo.
A indicação do dispositivo levou em conta a falha dos tratamentos anteriores, o tamanho da lesão e a idade do paciente. “Trata-se de um paciente muito jovem, com uma doença grave e alto risco de mortalidade em caso de ruptura, que pode chegar a cerca de 50%”, destaca o especialista.
O procedimento foi custeado com recursos destinados ao HU-UFPI por meio do Fundo de Ações Estratégicas e Compensação (FAEC), mecanismo de financiamento do SUS voltado ao suporte de ações estratégicas e de procedimentos de média e alta complexidade. A iniciativa possibilitou o acesso a uma tecnologia já utilizada em centros de referência no Brasil e no exterior.
“A gente observa resultados muito positivos com essa técnica, que já é empregada em países como Estados Unidos, Alemanha e França. É um avanço enorme poder oferecer esse tratamento de ponta em um hospital público no Piauí”, afirma o médico.
Apesar dos benefícios, o uso do stent diversor de fluxo é indicado apenas para casos específicos. “Não é todo aneurisma que precisa desse tipo de tratamento. A indicação depende de critérios clínicos e anatômicos bem definidos”, reforça.
O que é um aneurisma cerebral
O aneurisma é uma dilatação, como uma pequena bolha, na parede de uma artéria. O sangramento ocorre quando há ruptura, ou seja, quando essa bolha “estoura”.
“É como um ponto fraco em um pneu: ele pode até resistir por um período, e você pode chegar de um lugar a outro, mas, se estourar, pode provocar uma hemorragia cerebral grave, com alto risco de morte ou sequelas”, explica o neurologista. Fatores como predisposição genética, tabagismo e hipertensão arterial estão entre os principais associados ao problema.