
Pesquisadores em campo
A dissertação de mestrado “O Registro Fossilífero de Eremotherium Laurillardi (Lund, 1842) No Piauí: Implicações Paleobiogeográficas, Paleoecológicas e Paleoclimáticas” desenvolvida pela pesquisadora Mariana Miranda de Sousa, orientada pelo professor Daniel Fortier, do departamento do curso de ciências biológicas no campus de Floriano/Piauí (CAFS), apresenta um estudo que investiga o registro fóssil da preguiça-gigante Eremotherium laurillardi no Piauí, destacando o achado incomum no centro-norte do estado, no município de Arraial.
A pesquisa teve como objetivo caracterizar morfológica e cronologicamente o material fóssil, além de reconstruir aspectos paleoecológicos relacionados à dieta e ao clima, e avaliar a distribuição potencial da espécie por meio de modelagem de nicho ecológico. As análises confirmaram a atribuição do material ao gênero Eremotherium, uma preguiça-gigante terrestre que viveu nas Américas durante o Pleistoceno, cerca de 10 a 11 mil anos atrás.
Os fósseis encontrados em Arraial possuem relevância para a compreensão da distribuição geográfica da espécie, já que registros desse tipo são mais comuns no sudeste do estado, especialmente na região da Serra da Capivara.

Mariana Miranda de Sousa
Segundo a pesquisadora Mariana Miranda, esse novo registro levanta questionamentos sobre a ocupação da espécie em áreas ainda pouco exploradas.“A importância dessa amostra que encontramos lá em Arraial tem uma relevância grande na questão da distribuição geográfica dessa espécie, pois a gente comumente encontra esses fósseis no sudeste piauiense. O Arraial, que fica no centro-norte do estado, é um registro diferenciado,” reitera a acadêmica.
Para compreender a idade e os aspectos ecológicos do animal, o estudo utilizou métodos paleoecológicos, incluindo datação por carbono-14(¹⁴C) para descobrir a idade do animal e análises isotópicas para compreender a ecologia da espécie encontrada. Parte do material foi analisada em uma universidade no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, devido à necessidade de técnicas específicas.
De acordo com Mariana, a datação indicou que o animal viveu há aproximadamente 33 mil anos. As análises isotópicas permitiram, também, identificar padrões alimentares e ambientais.“A análise mostrou que ele tinha uma dieta rica em C4, espécie de plantas que utilizam uma via fotossintética eficiente que minimiza a fotorrespiração, comum em climas quentes, ou seja, consumia mais gramíneas do que arbustos. Já em relação ao ambiente, conseguimos identificar, a partir do oxigênio-18, que era um cenário mais frio e úmido do que o atual, com períodos de maior disponibilidade de água,” reforça a acadêmica.

Professor Daniel Fortier
O orientador da pesquisa e professor da Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação da UFPI (PPGBC), Daniel Fortier, destacou o desempenho da pesquisadora ao longo do desenvolvimento do trabalho: “A orientação da aluna Mariana ocorreu de forma muito satisfatória, destacando-se desde o início por uma postura profissional. Ela manteve o trabalho alinhado ao cronograma ao longo de todo o processo, o que contribuiu significativamente para o bom desenvolvimento da pesquisa e para a sua conclusão dentro do prazo previsto,” frisa o pesquisador.
O docente ressalta, ainda, a contribuição acadêmica da pesquisa, especialmente na ampliação do conhecimento sobre a megafauna no Nordeste. “A principal contribuição da pesquisa está na ampliação do conhecimento paleoecológico e paleobiogeográfico do Nordeste brasileiro, ao preencher lacunas sobre a ocorrência de megafauna no centro-norte do Piauí, uma área ainda pouco estudada”, afirma o professor.
A modelagem de nicho ecológico(MNE) foi desenvolvida com base em 97 pontos de ocorrência da espécie, sendo 37 com datação absoluta. A abordagem permitiu relacionar os registros fósseis a variáveis ambientais, contribuindo para reconstruir a distribuição potencial da espécie ao longo do tempo.
A MNE é uma ferramenta computacional utilizada para prever a distribuição geográfica potencial de uma espécie com base em suas necessidades ambientais. Já a pontuação, dentro do contexto da modelagem, refere-se à validação estatística da qualidade desse modelo.
Com isso, a pesquisa reforça a importância de novas investigações em áreas ainda pouco exploradas e amplia a compreensão sobre a dinâmica ambiental e a presença da megafauna no Piauí durante o Pleistoceno.
Confira mais fotos:

