
Na foto, Iranary Ohio Silva Almeida ao lado da orientadora da pesquisa, Manoela Lopes, e demais membros da banca examinadora de dissertação
A saúde dos professores e as condições em que o trabalho docente é desenvolvido foram o foco da pesquisa de mestrado “Promoção de Saúde dos Docentes Escolares à Luz do Laboratório de Mudanças”, desenvolvida pela discente Iranary Ohio Silva Almeida, sob orientação da professora Manoela Lopes, do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comunidade da Universidade Federal do Piauí (PPGSC/UFPI). A defesa da dissertação ocorreu em 11 de agosto de 2026.
O estudo investigou como a organização e as condições do trabalho docente podem estar relacionadas a processos de desgaste e adoecimento. Para isso, a pesquisa utilizou o Laboratório de Mudanças (LM), metodologia participativa que coloca os trabalhadores no centro da análise dos problemas e da construção de alternativas para transformar a atividade profissional.
Segundo a professora Manoela Lopes, a discussão sobre a saúde dos docentes permanece necessária diante do aumento de casos de adoecimento e de afastamentos do trabalho. Entre os problemas relacionados à atividade estão estresse, distúrbios osteomusculares e vocais, ansiedade, depressão e burnout.
“O trabalho apresenta centralidade na nossa sociedade, sendo um importante determinante social de saúde, que pode contribuir tanto para o adoecimento, quanto para promoção de saúde”, explica a orientadora.
Pesquisa parte da realidade vivenciada pelos professores
O interesse de Iranary pelo tema surgiu da percepção de que, embora os professores exerçam papel fundamental na formação da sociedade, enfrentam uma rotina que pode repercutir diretamente em sua saúde.
“Senti a necessidade de compreender melhor como o trabalho afeta a saúde dos docentes e principalmente, dar voz a esses trabalhadores, que muitas vezes se sentem desvalorizados e esquecidos”, afirma a pesquisadora.
A proposta foi além da coleta de informações. Durante a pesquisa, os professores participaram de encontros destinados à análise coletiva do próprio trabalho, compartilhando experiências e identificando problemas presentes no cotidiano escolar.
“Não foi apenas ‘coletar dados e informações’, a proposta foi criar um lugar em que os professores pudessem falar sobre o próprio trabalho, compartilhar experiências e refletir coletivamente sobre os problemas que vivenciam”, destaca Iranary.
Laboratório de Mudanças
O Laboratório de Mudanças foi desenvolvido por pesquisadores finlandeses na década de 1990 e é fundamentado na Teoria da Atividade Histórico-Cultural e na Teoria da Aprendizagem Expansiva. A metodologia utiliza dados e situações concretas da atividade de trabalho para estimular a reflexão coletiva e a construção de possibilidades de mudança.
Na pesquisa da UFPI, o método deu continuidade a um estudo anterior realizado na mesma unidade escolar. Os dados produzidos anteriormente, por meio de entrevistas, análise de documentos e observações, foram utilizados como “dados-espelho”, permitindo que os professores reconhecessem situações presentes em seu próprio cotidiano de trabalho.
Ao longo de nove sessões semanais, com duração de uma hora cada, os participantes analisaram problemas, identificaram contradições existentes na organização do trabalho e discutiram possibilidades de transformação. Inicialmente, o grupo era formado por dez participantes.
Para a orientadora, um dos principais destaques da pesquisa foi justamente o protagonismo dos docentes durante esse processo.
“Os professores conseguiram compreender em profundidade e de forma sistêmica sobre a origem dos problemas vivenciados e também construíram coletivamente as soluções”, afirma a professora Manoela Lopes.
Infraestrutura e sobrecarga aparecem entre os principais problemas
Entre as situações identificadas durante os encontros estão dificuldades relacionadas à infraestrutura e aos recursos disponíveis na escola. Os docentes relataram a existência de poucos banheiros, ausência de espaço adequado para descanso e repouso, copa insuficiente e falta de um ambiente reservado para que os profissionais realizem suas refeições.
Também foram apontados problemas de comunicação entre professores e gestão, baixa remuneração, pouca autonomia profissional, desmotivação e sobrecarga de trabalho.
Outro aspecto discutido foi a relação com os estudantes e suas famílias. Situações de indisciplina, dificuldades de diálogo e baixa participação familiar no acompanhamento da vida escolar foram mencionadas pelos docentes como fontes de desgaste.
A escola analisada está localizada em um território marcado por vulnerabilidades sociais. Nesse contexto, os professores relataram situações de violência e ameaças no ambiente escolar, além de assumirem, em determinadas situações, responsabilidades que ultrapassam suas atribuições pedagógicas, como oferecer suporte a estudantes com problemas de saúde e realizar encaminhamentos para unidades de saúde.
As demandas se somam ao trabalho pedagógico e podem mobilizar aspectos físicos, cognitivos, emocionais e psíquicos dos profissionais. Segundo a orientadora, a exposição prolongada a diferentes fatores de risco pode contribuir para o surgimento e ou agravamento do adoecimento docente.
Professores constroem propostas de mudança
A participação dos docentes também ocorreu na etapa de construção de soluções. Entre as propostas elaboradas estão a realização de rodas de conversa, o fortalecimento da comunicação entre professores e gestão, a melhoria do diálogo com as famílias e a organização do calendário e das atividades escolares.
Os participantes também apontaram a necessidade de maior autonomia para os professores, melhorias na infraestrutura e nos espaços de descanso, adequação da carga horária e das capacitações e melhoria dos recursos disponíveis. Algumas das propostas dependem de articulação com outras instâncias, especialmente a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC).
Para Manoela Lopes, a valorização da experiência dos trabalhadores é fundamental para compreender os problemas e pensar estratégias de prevenção.
“Ouvir os trabalhadores é algo essencial no campo da saúde do trabalhador, pois ninguém melhor do que quem realiza o trabalho para falar das dificuldades e pensar em estratégias de prevenção”, ressalta.
Contribuição para a Saúde do Trabalhador
A pesquisa apresenta uma contribuição metodológica para os estudos sobre saúde e trabalho no Piauí. De acordo com a orientadora, foi a primeira pesquisa realizada no Estado com a utilização do Laboratório de Mudanças no campo da Saúde do Trabalhador.
Além de identificar problemas, o estudo permitiu que os próprios trabalhadores participassem da elaboração de alternativas. A proposta está relacionada a uma abordagem sistêmica, organizacional e participativa da saúde do trabalhador, considerando também os fatores presentes na organização do trabalho.
Os resultados podem subsidiar ações voltadas à melhoria das condições de trabalho nas escolas e contribuir para discussões sobre políticas públicas nas áreas de educação e saúde.
Para Iranary, um dos principais aprendizados da pesquisa foi compreender que a promoção da saúde docente pode ser construída a partir do próprio ambiente de trabalho.
“A principal contribuição é mostrar que a promoção da saúde docente pode ser construída no trabalho, tornando os professores protagonistas da sua atividade”, afirma.
Pesquisa amplia trajetória acadêmica da mestra
Além da contribuição científica e social, a pesquisa representou uma etapa importante na trajetória acadêmica e profissional de Iranary. O contato direto com os docentes e a aplicação do Laboratório de Mudanças ampliaram sua compreensão sobre as relações entre trabalho, saúde e educação.
“O processo de realização do Laboratório de Mudanças ampliou minha compreensão sobre a relação entre trabalho, saúde e educação e reforçou meu interesse em desenvolver pesquisas que não apenas busquem compreender os problemas, mas que também possam intervir e contribuir para sua mudança”, destaca.
A pesquisa também abre possibilidades para novos estudos sobre saúde do trabalhador, tanto na educação quanto em outros setores. Para a professora Manoela Lopes, a participação dos trabalhadores deve permanecer como elemento fundamental na compreensão dos processos de adoecimento e na construção de estratégias de promoção e proteção da saúde.