Documentário “A Dor da Pele” produzido pelo CIATEN/UFPI é selecionado para o 20º Festival Nacional de Cinema do Piauí

O estudante de Medicina, Raí de Moura Ribeiro, durante produção de documentário do CIATEN/UFPI

O documentário “A Dor da Pele”, produzido no âmbito do Centro de Inteligência em Agravos Tropicais, Emergentes e Negligenciados (CIATEN) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), foi selecionado para participar do 20º Festival Nacional de Cinema do Piauí (CINEPIAUÍ) Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões. A produção aborda a hanseníase a partir das experiências de pessoas que convivem ou já conviveram com a doença, aproximando a pesquisa científica da linguagem audiovisual.

A obra nasceu a partir de um projeto de Iniciação Científica desenvolvido pelo estudante de Medicina da UFPI, Raí de Moura Ribeiro, sob orientação do professor e pesquisador Fábio Solon Tajra. O trabalho teve como ponto de partida a aproximação do estudante com o Centro Maria Imaculada, onde ele teve contato com pessoas em tratamento ou já curadas da hanseníase e passou a conhecer relatos sobre suas experiências com a doença.

A proposta, inicialmente vinculada à pesquisa, ganhou uma nova forma de comunicação por meio do audiovisual. A produção técnica e artística ficou a cargo de Alisson Carvalho, responsável pela direção, captação de imagens, produção, edição e pós-produção.

Para o professor Fábio Solon Tajra, a produção representa uma forma de ampliar o alcance do conhecimento produzido dentro da Universidade. Segundo ele, embora a academia tenha como uma de suas principais atividades a produção de artigos e livros, parte da sociedade não tem acesso direto a esse conhecimento. “Então, a ideia de apresentar um documentário é muito nessa intenção de construir um mecanismo de interação e de aproximação com as pessoas que não estão aqui no nosso convívio dentro do universo acadêmico, científico, mas que precisam se sensibilizar e se mobilizar diante das temáticas”, explica.

Mais do que apresentar a hanseníase apenas pelo aspecto clínico, a produção prioriza as histórias de quem convive ou já conviveu com a doença. “A principal temática do documentário são as pessoas com hanseníase, aquelas curadas ou aquelas com tratamento em andamento. Mas o nosso foco são as pessoas, porque a gente acha que a valorização da doença não corresponde ao nosso pensamento. Hoje a gente trabalha muito num olhar sobre os determinantes sociais de saúde e o cuidado centrado na pessoa. Então, é importante a gente falar das pessoas que convivem com as doenças e não valorizar somente a doença a partir de um ponto de vista mais biomédico”, destaca o professor.

A produção contou com aproximadamente oito a dez entrevistas com pessoas afetadas pela hanseníase e familiares, além da participação de profissionais e integrantes do Centro Maria Imaculada. Após essa etapa, foram selecionados os relatos e realizadas novas gravações no local para complementar o material audiovisual.

Para o estudante Raí Ribeiro, a aproximação com essas histórias foi fundamental para compreender aspectos da hanseníase que muitas vezes permanecem distantes do conhecimento do público. “O objetivo do documentário é justamente se tornar mais próximo dessa vivência, da história de como se passa e do que se vive na pele com a hanseníase para o público em geral”, relata.

Segundo ele, as entrevistas revelaram histórias marcadas por experiências pessoais e também por situações de preconceito, permitindo que o audiovisual desse visibilidade a questões que nem sempre encontram espaço nas discussões públicas.

A construção do documentário também envolveu cuidados relacionados à forma como as histórias seriam apresentadas. Para o responsável pela direção e produção audiovisual, Alisson Carvalho, os participantes não foram tratados apenas como fontes de informação, mas como interlocutores da produção.

“Quando você vê a própria pessoa falando da sua dor, isso muda completamente a perspectiva de mundo. Você passa a observar o outro não mais como um dado e sim como uma pessoa”, afirma.

Para o diretor, a presença em festivais contribui ainda para que as próprias pessoas afetadas pela hanseníase apresentem suas experiências, dificuldades e conhecimentos sobre o tratamento, ampliando o acesso do público a informações sobre a doença. “A importância maior desse e de outras participações em festivais é fazer com que as pessoas escutem da voz desses próprios interlocutores sobre as suas dores, sobre as suas dificuldades e conheçam o espaço, o tratamento e as formas de cura”, diz.

A produção de “A Dor da Pele” integra uma proposta mais ampla desenvolvida pelo grupo, que busca aproximar ciência e arte como formas complementares de produção e circulação do conhecimento. A proposta é continuar utilizando diferentes linguagens para ampliar a circulação do conhecimento produzido na Universidade. Para o professor Fábio Solón, a participação no festival reforça a responsabilidade de dar continuidade a esse trabalho e de fortalecer a presença da UFPI e do Piauí em espaços de produção científica, cultural e audiovisual. “Quanto mais pessoas envolvidas nessa defesa pela saúde no enfrentamento da hanseníase, mais potência a gente vai ter para mudar a nossa realidade”, conclui.