
Na foto, Ana Karoline e sua orientadora professora Elisângela Cardoso e demais docentes membras da banca avaliadora de doutorado
Atualmente, ao cruzar as cidades do Piauí, percebemos a quantidade de farmácias instaladas nas esquinas de avenidas, nas ruas, em bairros famosos e periféricos, umas coladas às outras. Porém, poucos estudos se aprofundaram em como essa presença das farmácias e da atividade farmacêutica foi construída historicamente no Estado, pensando nisso Ana Karoline de Freitas Nery desenvolveu sua tese de doutorado para estudar isso.
A discente, do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil (PPGHB/CCHL) já havia iniciado a pesquisa na área ainda na dissertação de mestrado, onde estudou as políticas públicas de saúde e medicamentos em Teresina. “Eu segui, as sugestões dadas pela banca de mestrado para desenvolver uma tese sobre o campo da farmácia no Piauí, visto que não havia uma pesquisa de teor historiográfico a respeito da temática”, explicou Ana Karoline .
A orientadora do projeto, a professora Elisângela Cardoso destacou a importância da tese e suas contribuições. “É um trabalho ambicioso, do ponto de vista do recorte, porque cobre um período amplo, um estudo que pode inspirar novas pesquisas, e que consolida um conjunto de informações que, a princípio, estavam dispersas”.
A pesquisa buscou compreender a atuação de farmacêuticos frente à instalação de farmácias e laboratórios, na produção e venda de medicamentos, no Piauí, entre as décadas de 1860-1953. Apontando a concentração de farmácias e o exercício de farmacêuticos, a partir de 1860 e a ampliação adquirida ao longo da primeira metade do século XX, considerando a relação com a sociedade através da oferta, produção, venda de medicamentos e cuidados aos doentes.
Ao longo desse período, a atuação dos farmacêuticos no Piauí apresentou características próprias quando comparada a outros centros, como Bahia e Rio de Janeiro, locais onde receberam formação. Contudo, no Estado do Piauí eles passaram a atuar não apenas a partir dos conhecimentos científicos adquiridos, mas também buscando espaço no mercado terapêutico, por meio da produção de medicamentos, da atuação nas farmácias e das relações estabelecidas com a população.
Um dos aspectos que mais surpreenderam Ana Karoline durante a pesquisa foi a trajetória do farmacêutico piauiense Eugênio Marques de Hollanda. Diplomado em Farmácia no Rio de Janeiro, em 1860, ele retornou ao Piauí, onde instalou uma farmácia e passou a manipular e vender medicamentos. Em 1881, instalou o Laboratório Flora Brasileira, considerado pioneiro no uso da flora medicinal brasileira para a produção de medicamentos em uma escala mais ampla. A atuação de Eugênio também aproximou o Piauí dessa dinâmica, já que a flora medicinal do Estado era enviada para a produção de medicamentos que posteriormente eram comercializados dentro e fora do Brasil.
Para Ana Karoline, conhecer essa trajetória também permite compreender como a sociedade chegou à forma atual de tratar doenças por meio dos medicamentos. A pesquisadora destaca que questões presentes no cotidiano, como o uso de substâncias naturais, a automedicação e a busca pela eficácia de medicamentos, possuem uma trajetória histórica relacionada à atuação dos farmacêuticos, aos conhecimentos sobre plantas medicinais, à criação de laboratórios e à expansão dos mercados consumidores.