Pesquisa de doutorado do PPG em Alimentos e Nutrição identifica fatores associados à insegurança alimentar e consumo de alimentos com a saúde mental de adolescentes

Estudo realizado com estudantes de escolas públicas de Teresina aponta elevada prevalência de sintomas depressivos e destaca a relação com fatores psicológicos, comportamentais, familiares e alimentares

Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Alimentos e Nutrição (PPGAN) da Universidade Federal do Piauí (UFPI) investigou fatores associados à saúde mental de adolescentes de escolas públicas de Teresina. O estudo identificou uma elevada prevalência de sintomas depressivos entre os participantes e reforçou a importância de estratégias integradas de promoção da saúde mental.

Na foto, Andrea Nunes Mendes de Brito ao lado da sua orientadora de doutorado Adriana de Azevedo Paiva

A tese de doutorado foi defendida em julho deste ano por Andrea Nunes Mendes de Brito, sob orientação da professora Adriana de Azevedo Paiva. A pesquisa foi realizada com adolescentes de 12 a 17 anos matriculados em escolas públicas da capital piauiense.

Entre os principais resultados, 38,53% dos participantes apresentaram sintomas depressivos moderados a graves. Para Andrea, o percentual chama atenção para a dimensão do sofrimento mental entre os adolescentes e levanta a possibilidade de haver casos que não são identificados adequadamente nessa faixa etária.

A motivação para a pesquisa surgiu da experiência de Andrea como professora em uma faculdade. Ela conta que começou a perceber, a cada período, um aumento na quantidade de alunos muito jovens, entre 17 e 19 anos, apresentando problemas relacionados à saúde mental. A situação despertou o questionamento sobre o que estaria acontecendo antes da chegada desses jovens à faculdade e, principalmente, durante o período escolar.

“Isso começou a me inquietar”, relata a pesquisadora.

Segundo Andrea, o resultado reforça a importância de ampliar ações de prevenção, identificação precoce e cuidado em saúde mental, especialmente nos ambientes escolar e de saúde.

Fatores associados

A pesquisa identificou associação entre sintomas depressivos e diferentes fatores psicológicos, comportamentais e familiares e alimentares. Entre eles estão baixa autoestima, sonolência diurna excessiva, tempo de tela, uso de redes sociais e tabagismo do responsável. Também foi observada maior prevalência de sintomas entre adolescentes do sexo feminino.

A baixa autoestima esteve associada a uma prevalência 27% maior de sintomas depressivos. A sonolência diurna excessiva também apresentou associação e, segundo Andrea, pode funcionar como um marcador de sofrimento mental.

Em relação ao uso de dispositivos e redes sociais, adolescentes que passavam de 2,0 a 2,9 horas por dia em frente às telas apresentaram maior prevalência de sintomas depressivos. O mesmo foi observado entre aqueles que utilizavam redes sociais por três horas ou mais diariamente.

Para Andrea, o uso intenso das redes sociais pode envolver aspectos como comparação social, busca por validação externa e exposição a padrões idealizados, que podem aumentar a vulnerabilidade psicológica. Já o tabagismo do responsável pode estar relacionado a situações de instabilidade ou condições adversas no ambiente familiar.

Os resultados reforçam a necessidade de compreender a saúde mental dos adolescentes de forma ampla, considerando a interação entre aspectos psicológicos, comportamentais, familiares, sociais e ambientais.

Relação entre alimentação e saúde mental

Outro resultado da pesquisa foi a associação entre o consumo regular de feijão e uma menor prevalência de sintomas depressivos entre as meninas. Na amostra total, essa associação perdeu significância após os ajustes realizados pelos pesquisadores. Quando a análise foi feita separadamente por sexo, porém, o resultado permaneceu entre as adolescentes do sexo feminino.

Andrea explica que uma possível interpretação para esse achado está na composição nutricional do feijão, que contém ferro, fibras, folato e outros micronutrientes. Esses componentes estão relacionados a processos do organismo que envolvem metabolismo, regulação inflamatória e funcionamento do sistema nervoso.

A pesquisadora ressalta, entretanto, que o resultado representa uma associação e não permite estabelecer uma relação de causa e efeito entre o consumo de feijão e os sintomas depressivos.

O achado também reforça a importância de investigar a alimentação nas pesquisas sobre saúde mental, considerando não apenas nutrientes isolados, mas também alimentos e padrões alimentares.

A importância de ações integradas

Para a professora Adriana Paiva, compreender a saúde mental dos adolescentes exige olhar para diferentes dimensões da vida. Segundo ela, problemas nessa área têm natureza multifatorial e podem estar relacionados à alimentação, insegurança alimentar, atividade física, uso de substâncias, qualidade e duração do sono, contexto familiar e condições sociais.

“Os fatores não atuam de forma isolada, mas se inter-relacionam e conjuntamente impactam a saúde mental dos adolescentes”, explica.

A orientadora destaca que investigar esses aspectos de maneira integrada permite compreender melhor os grupos mais vulneráveis e pode contribuir para o planejamento de estratégias de promoção e prevenção em saúde.

Além dos resultados apresentados na tese, Adriana explica que o banco de dados utilizado nas pesquisas ainda está sendo analisado e complementado com informações mais detalhadas sobre o consumo alimentar. Novas análises buscam aprofundar a relação entre saúde mental e consumo de alimentos e bebidas, incluindo os açucarados.

O desenvolvimento dessas pesquisas também contribui para a formação acadêmica e científica de estudantes de graduação e pós-graduação da UFPI e para a produção de conhecimento sobre adolescentes no Piauí. Ao investigar fatores modificáveis, como alimentação, sono, hábitos e comportamentos, os estudos podem contribuir para orientar futuras ações voltadas à saúde e à qualidade de vida desse público.

Os resultados mostram que a saúde mental na adolescência é atravessada por diferentes aspectos da vida cotidiana e reforçam a necessidade de ações articuladas entre escolas, famílias e serviços de saúde. A identificação precoce de sinais de sofrimento e a adoção de estratégias de prevenção podem contribuir para um cuidado mais amplo e adequado às necessidades dos adolescentes.