Pesquisa da UFPI resgata história das hortas comunitárias do Dirceu e destaca protagonismo dos horticultores


Horticultor cultivando em canteiro (Foto: Leila Lira @hortadabene)

As hortas comunitárias do bairro Dirceu Arcoverde, localizado na zona Sudeste de Teresina (PI), viraram o principal tema de pesquisa da dissertação de Iarah Gabrielly de Sousa Lyra, Mestra em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Para ela, a temática remonta às suas raízes familiares, já que os avós da pesquisadora eram agricultores da horta.

A pesquisa, intitulada "Recriando a terra em 'vazios' urbanos: implantação e r(existências) no projeto de hortas comunitárias da região sudeste de Teresina", analisa a implantação e o desenvolvimento das hortas comunitárias do Dirceu, destacando o papel dos horticultores na transformação de espaços urbanos ociosos em áreas produtivas que geram emprego, renda e fortalecem a agricultura urbana.

A dissertação foi apresentada de forma remota em 13 de abril de 2026. A banca contou com a orientadora, professora Claudia Fontineles; o professor Marcelo de Sousa Neto, da Universidade Estadual do Piauí; e o professor Denilson Botelho de Deus, da Universidade Federal de São Paulo.

Iarah apresentando a pesquisa em simpósio temático 

Iarah cresceu convivendo com as hortas comunitárias e acompanhou de perto a importância desse trabalho para o sustento de sua família. A pesquisa inicial sobre a temática foi feita durante sua graduação em História, também pela UFPI. Os resultados despertaram novas questões, que foram aprofundadas no mestrado. 

"Não foi apenas um aprofundamento acadêmico, mas também uma forma de valorizar a memória, as experiências e as trajetórias desses horticultores que fizeram e continuam fazendo parte desse espaço", destacou a pesquisadora.

Iarah utilizou a metodologia da História Oral, realizando entrevistas com trabalhadores das hortas e articulando diferentes fontes. Um dos aspectos que mais chamou a atenção durante a pesquisa foi o processo de transformação da área onde o projeto foi implantado. Localizadas sob as linhas de transmissão de alta tensão da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), as hortas ocupam uma área que, antes de 1987, era considerada ociosa e frequentemente utilizada de forma inadequada.


Hortas comunitárias do Itararé (1998) Fonte: Documentação disponibilizada pela Chesf (1998). Digitalizado por Lyra (2025)

De acordo com a professora Claudia Fontineles, a pesquisa ajuda a compreender a história da formação dos centros urbanos no estado do Piauí após os impactos causados pela ditadura civil-militar, que, conforme a docente, deixou “um lastro de exclusão social, de êxodo rural e inchaço urbano”.

“O estudo de Iarah, cuja orientação eu fiz com muito apreço, ainda contribui sobremaneira para reconhecer o protagonismo de trabalhadores imigrantes e sua relevância para a produção de alimentos e de preservação das tradições  de cultivo da terra, com todas as implicações, belezas e desafios que esse trabalho expressa; relacionada também às lutas e mecanismos de sobrevivência  e de resistência  que esses sujeitos encontraram para existir e habitar Teresina, por meio de sua relação  de interação e de respeito com o meio ambiente”, acrescentou a professora Claudia Fontineles.

Atualmente, as hortas comunitárias se estendem por cerca de 4,5 quilômetros ao longo da Avenida Noé Mendes. Para a pesquisadora, essa ocupação demonstra como comunidades podem atribuir novos significados ao espaço urbano e fortalecer vínculos sociais por meio do trabalho coletivo.


Horticultora colhendo alfaces (Foto: Leila Lira @hortadabene)

Para Iarah, a principal contribuição da dissertação é dar visibilidade aos trabalhadores que construíram essa história e preservar suas memórias para as futuras gerações.

"Essa pesquisa é, acima de tudo, sobre pessoas que transformam espaços e constroem formas de resistência por meio do trabalho. As hortas não são apenas lugares de cultivo, são espaços de trabalho, memória e resistência, construídos diariamente por esses trabalhadores que recriam a terra e, ao mesmo tempo, recriam as suas próprias histórias", concluiu.

Durante o mestrado, a pesquisadora contou com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que possibilitou a participação em eventos científicos, simpósios e atividades de extensão. Ela também destaca a importância da orientação da professora Cláudia Fontinelles e do incentivo recebido durante sua formação acadêmica.