Primeiras mestras quebradeiras de coco babaçu do PPG em Antropologia apresentam resultados de suas pesquisas à comunidade


As apresentações ocorreram durante a programação da III Feira da Agricultura Familiar

O Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAnt) da Universidade Federal do Piauí (UFPI) celebrou a defesa das dissertações de Sandra Silva Cardoso e Antonia Regina da Silva Sousa, primeiras quebradeiras de coco babaçu tituladas pelo Programa. As pesquisadoras ingressaram no mestrado em 2024 por meio da política de ações afirmativas destinada a indígenas, quilombolas e quebradeiras de coco babaçu, implantada pelo PPGAnt em 2018.

As defesas foram realizadas no dia 2 de julho.As apresentações ocorreram durante a programação da III Feira da Agricultura Familiar, Povos Tradicionais e Economia Solidária do Piauí, no Espaço Rosa dos Ventos, no Campus Ministro Petrônio Portella, em Teresina. O momento reuniu quebradeiras de coco babaçu, representantes de movimentos sociais, docentes, pesquisadores, estudantes e familiares das novas mestras, marcando um momento histórico para a Universidade e para o movimento social.

Sandra Silva Cardoso 

Sandra Silva Cardoso defendeu a dissertação Do Babaçu à Resistência: as lutas das quebradeiras de coco no Assentamento Fortaleza IV (PI). Aprovada com indicação para publicação em razão da qualidade do trabalho, a pesquisa buscou compreender as lutas, os saberes tradicionais e as formas de resistência das mulheres quebradeiras de coco babaçu do Assentamento Fortaleza IV, localizado em Esperantina (PI). Segundo a pesquisadora, o babaçu representa muito mais do que uma fonte de renda, constituindo parte da identidade, da cultura, da memória e da organização social dessas mulheres. 

Durante o desenvolvimento da pesquisa, Sandra realizou trabalho de campo com observação participante, entrevistas com quebradeiras de coco e lideranças do território, além de levantamento bibliográfico, incluindo o acervo de Dona Chica Lera. Para ela, um dos maiores desafios foi assumir o papel de pesquisadora sem deixar de lado sua identidade como integrante da comunidade.

"Houve um esforço permanente para ir além da condição de quebradeira de coco investigada por outros pesquisadores e assumir o papel de pesquisadora. Isso significou transformar vivências, memórias e conhecimentos construídos no território em reflexão acadêmica, demonstrando que as quebradeiras não apenas produzem o babaçu, mas também produzem conhecimento sobre suas vidas, seus territórios e suas formas de resistência", destacou.

Sandra afirma que a pesquisa fortalece os estudos sobre povos e comunidades tradicionais, antropologia, gênero e saberes tradicionais, além de contribuir para a valorização da memória coletiva das quebradeiras de coco e subsidiar debates sobre direitos territoriais, preservação ambiental e políticas públicas voltadas às comunidades tradicionais.

A pesquisadora também descreveu a emoção vivida após a aprovação. "Representou não apenas uma conquista pessoal, mas também uma conquista coletiva das mulheres quebradeiras de coco, cujas histórias passaram a ocupar um espaço na produção acadêmica. Senti que todo o esforço valeu a pena", afirmou. Ela também pretende dar continuidade aos estudos em um futuro doutorado.

Antonia Regina da Silva Sousa

Já Antonia Regina da Silva Sousa apresentou a dissertação Memórias de Macete, Escritas de Caneta: Memória Social e Identidade das Quebradeiras de Coco da Chapada da Sindá. A pesquisa utiliza a etnografia e a autoetnografia como caminhos metodológicos, adotando a perspectiva da "Antropologia feita em casa" para abordar as memórias, a identidade e a histórica luta pela terra da comunidade Chapada da Sindá, localizada em São João do Arraial (PI).

Segundo Antonia Regina, o processo de pesquisa começou quando compreendeu que ela própria também fazia parte do campo investigado. "Foi um percurso intensamente reflexivo, por vezes desafiador, mas profundamente significativo. Investigar a própria comunidade e dar voz às questões que nos atravessam na pele e no território foi um processo de imenso aprendizado e amadurecimento, tanto pessoal quanto acadêmico", explicou.

Para a pesquisadora, a dissertação amplia o debate acadêmico sobre povos e comunidades tradicionais ao fortalecer a perspectiva da "Antropologia feita em casa" e colocar as próprias quebradeiras de coco como autoras de suas narrativas. Além disso, o trabalho contribui para dar visibilidade à história, à identidade e à luta pela terra da Chapada da Sindá, valorizando conhecimentos fundamentais para a preservação cultural e ambiental.

Regina destacou ainda que a aprovação simboliza a realização de um sonho coletivo. "Foi a concretização de um sonho coletivo. Pretendo dar continuidade à pesquisa, aprofundando o referencial autoetnográfico e contribuindo para valorizar a identidade das quebradeiras de coco e fortalecer a defesa dos nossos territórios", afirmou.

As duas pesquisadoras possuem trajetória de atuação no Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e desenvolveram pesquisas voltadas às lutas protagonizadas por suas comunidades. As dissertações abordam temas de relevância científica, social e política, como identidade, memória social, territorialização, conflitos socioambientais, resistência e saberes tradicionais.

Carmen Lúcia Silva Lima

A professora Carmen Lúcia Silva Lima, orientadora de Sandra e coorientadora de Regina, destacou a importância das pesquisas para o Programa de Pós-Graduação e para a Universidade.

“A titulação das primeiras mestras quebradeiras de coco babaçu representa um marco para o PPGAnt e para a UFPI, ao evidenciar os resultados da política de ações afirmativas implementada pelo Programa em 2018. Além de ampliar o acesso de povos e comunidades tradicionais à pós-graduação, a iniciativa fortalece a produção de conhecimentos comprometidos com a diversidade, a justiça social e o reconhecimento dos saberes tradicionais. Essas pesquisas demonstram que as quebradeiras de coco não são apenas objeto de estudo, mas protagonistas da produção científica sobre seus territórios, suas histórias e suas formas de resistência”, concluiu a professora.