Saúde do trabalhador e da trabalhadora: desafios contemporâneos e caminhos para a transformação dos ambientes de trabalho

Professora do Departamento de Medicina Comunitária, Manoela Lopes, estuda o tema "Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora" 

No mês de abril, entidades governamentais, instituições e empresas em todo o país promovem a Campanha Abril Verde, iniciativa que busca ampliar a conscientização sobre a importância da prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. A escolha do período está vinculada ao dia 28 de abril, quando é celebrado o Dia Internacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças Relacionadas ao Trabalho, data que reforça a necessidade de ambientes laborais mais seguros e saudáveis.

A campanha também estimula a adoção de medidas práticas de prevenção, como o uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPIs), a implementação de programas de gerenciamento de riscos ocupacionais e a promoção de ações educativas nos locais de trabalho. Além disso, o Abril Verde chama atenção para a responsabilidade compartilhada entre empregadores, trabalhadores e poder público na construção de uma cultura de segurança.

A relação entre trabalho e saúde tem sido cada vez mais investigada por pesquisadoras, pesquisadores e instituições nacionais e internacionais. Nas últimas décadas, a intensificação dos ritmos produtivos, as mudanças tecnológicas e a reconfiguração das relações laborais transformaram o cotidiano dos trabalhadores e trabalhadoras, trazendo novos desafios para a promoção da saúde.

Conselhos profissionais e órgãos de saúde têm reforçado que a saúde mental deve integrar as políticas de gerenciamento de riscos ocupacionais. O Conselho Federal de Enfermagem, por exemplo, destaca que a prevenção de riscos no ambiente laboral não pode se restringir a fatores físicos ou biológicos, mas deve incluir o sofrimento psíquico como dimensão central da saúde do trabalhador. Na mesma direção, a Fundação Oswaldo Cruz tem chamado atenção para a necessidade de políticas públicas estruturadas que articulem promoção, vigilância e assistência em saúde, considerando o trabalho como determinante social fundamental.

Nesse contexto, o Abril Verde também reforça a importância da vigilância em saúde do trabalhador, da notificação de acidentes e doenças ocupacionais e do fortalecimento de políticas públicas voltadas à proteção social e à qualidade de vida no trabalho.

É nesse cenário que a Superintendência de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí (SCS/UFPI) entrevistou a professora Manoela Gomes Reis Lopes, que investiga a saúde do trabalhador e da trabalhadora a partir de uma abordagem sistêmica e participativa. Para ela, compreender os impactos das condições de trabalho na saúde exige reconhecer a centralidade do trabalho na organização da vida social. “A variável trabalho é um dos mais importantes determinantes sociais de saúde”, afirma.

Segundo a pesquisadora, tanto a ausência quanto a presença do trabalho podem gerar impactos significativos. O desemprego, por exemplo, pode produzir sofrimento e adoecimento. Por outro lado, o trabalho ativo pode ser promotor de saúde quando realizado em condições adequadas, com reconhecimento, autonomia e organização saudável. “Quando você está em um ambiente de trabalho em que você tem o reconhecimento e autonomia, isso pode promover saúde”, explica Manoela Lopes.

Transformações no mundo do trabalho e novos impactos

A professora destaca que o mundo do trabalho passa por transformações profundas associadas à reestruturação produtiva e ao avanço tecnológico. “O mundo do trabalho está mudando. Então, com a reestruturação produtiva, a gente verifica uma mudança muito grande também do perfil de trabalho, o aumento da tecnologia, aumento de desemprego, diminuição de postos de trabalho e tudo isso pode contribuir para as formas de trabalho, as relações de trabalho que estão acontecendo no ambiente”. 

Essa mudança não elimina os riscos, mas os transforma. A intensificação do trabalho, a cobrança por resultados, a instabilidade nos vínculos empregatícios e a dificuldade de desconexão, ampliada pelas tecnologias digitais, têm repercussões diretas na saúde mental. “A gente não se desliga do nosso trabalho, quando a gente fala das tecnologias da informação, das ferramentas de comunicação, revela que estão deixando a gente trabalhar em vários horários, chegam e-mails, chegam mensagens, então, a gente não desconecta total do trabalho, a gente continua trabalhando mesmo sem estar no ambiente de trabalho físico. Se a gente não tem esse repouso para recuperação, isso vai levando cada vez mais ao adoecimento”.

Além disso, a exigência de múltiplas qualificações, cursos e idiomas, somada a salários frequentemente insuficientes, leva muitos trabalhadores a acumularem empregos, reduzindo ainda mais o tempo destinado ao repouso. “Ambientes de trabalho autoritários, com pouca autonomia e controle sobre as tarefas, e a pressão por resultados, podem gerar sofrimento e impactar negativamente a saúde mental”, ressalta.

Em situações mais graves, o trabalho pode estar relacionado ao afastamento prolongado e até ao risco de suicídio. Para a pesquisadora, é fundamental investigar de que maneira a organização do trabalho contribui para o sofrimento psíquico, evitando que a responsabilidade recaia exclusivamente sobre o trabalhador.

Fatores de risco: múltiplas exposições e interação entre agentes

A saúde do trabalhador considera tanto trabalhadores formais quanto informais, abrangendo diferentes modalidades de vínculo, e também diferentes riscos relacionados ao trabalho. Ao abordar os fatores de risco presentes nos ambientes laborais, a professora enfatiza que não é possível generalizar, pois cada atividade de trabalho possui singularidades. “Eu acho que esse é um ponto que vai também trazer um pouco essa compreensão dos fatores de risco, porque a gente vai vendo uma maior ou menor exposição dependendo de que trabalho a gente está falando”, explicou a professora.

Entre os principais fatores identificados citados pela pesquisadora estão:

-Riscos físicos: ruído, radiação, vibração e temperaturas extremas;
-Riscos químicos: exposição a substâncias como o benzeno, altamente cancerígeno;
-Riscos biológicos: vírus, bactérias e outros agentes, especialmente presentes em serviços de saúde;
-Riscos ergonômicos: posturas forçadas, movimentos repetitivos, ritmos acelerados e jornadas extensas;
-Riscos de acidentes: incêndios, explosões e máquinas e equipamentos sem proteção, entre outros.

No entanto, ela alerta que os riscos não atuam isoladamente. É necessário considerar a intensidade, a frequência e o tempo de exposição. “A gente não pode pensar em um único fator e o seu efeito, mas como é que está a interação com os demais”, ressaltou.

Laboratório de Mudanças

A pesquisa desenvolvida por Manoela Lopes utiliza a metodologia do Laboratório de Mudanças, fundamentada na Teoria da Atividade Histórico-Cultural e alinhada à Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. A abordagem propõe uma análise sistêmica da atividade de trabalho e valoriza a participação ativa dos próprios trabalhadores na identificação de problemas e na construção de soluções. “Ninguém melhor do que o trabalhador para falar sobre como é feito o seu trabalho”. 

A metodologia rompe com modelos que responsabilizam apenas o trabalhador e busca compreender o desenvolvimento de contradições do sistema de atividade ao longo do tempo. Segundo a pesquisadora, soluções impostas externamente, sem considerar as singularidades do trabalho real, tendem a fracassar. 

Já processos participativos fortalecem o protagonismo dos trabalhadores e ampliam as chances de implementação efetiva de mudanças. “Então é muito importante porque o Laboratório de Mudanças propicia esse protagonismo, esse envolvimento. São os próprios trabalhadores que fazem a análise do seu trabalho, a reflexão”, pontuou Manoela. 

Vulnerabilidade e invisibilidade no trabalho contemporâneo

Ao discutir os grupos mais vulneráveis, a professora destaca que a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora abrange trabalhadores formais, informais e até aposentados. No entanto, determinadas populações enfrentam maior exposição a riscos e menor proteção social, entre elas estão entregadores por aplicativo, trabalhadores em domicílio, como costureiras e produtores artesanais, migrantes e pessoas sujeitas a discriminação de gênero ou desigualdade salarial. 

O crescimento do trabalho informal e em domicílio, por exemplo, dificulta a atuação de órgãos de fiscalização e serviços de promoção da saúde. No caso dos entregadores por aplicativo, caso sofram algum acidente durante a entrega, deveria ser considerado acidente de trabalho, porém, este evento acaba sendo notificado apenas como acidente de trânsito, sem nenhuma relação com o trabalho. A ausência dessa identificação compromete registros e políticas de prevenção no campo da saúde do trabalhador. “Então nesse sentido, eu acho que esses trabalhadores precisam ter um apoio melhor da rede de saúde. Na prática, nem sempre a rede de saúde olha essas pessoas como trabalhadores e nem procura entender se aquele trabalhador que está ali tem uma doença ou um agravo relacionado ao trabalho ou não. Então, nesse sentido, eu acho que essas populações têm maior vulnerabilidade e precisam ser olhadas com maior atenção”, explicou.

Subnotificação e desafios no Piauí

A subnotificação de doenças e agravos relacionados ao trabalho é apontada como um dos principais desafios. Dados insuficientes no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) dificultam o planejamento de políticas públicas eficazes. No Piauí, os índices de notificação estão entre os mais baixos do país. “A temática das Doenças e Agravos Relacionados ao Trabalho (DART) é de extrema importância, por que, por exemplo, o estado do Piauí enfrenta elevados índices de subnotificação, com índices de notificação entre os piores do país. Isso dificulta o planejamento e a implementação de políticas públicas efetivas.”, explica a professora.

Casos de pneumoconioses, dermatoses ocupacionais, câncer relacionado ao trabalho e transtornos mentais muitas vezes não são devidamente registrados na relação com o trabalho. Essa invisibilidade estatística impede a compreensão real dos riscos e limita a formulação de estratégias preventivas. “Como exemplo, destacamos os entregadores por aplicativo. Verifica-se que há um grande registro de acidentes de trânsito envolvendo motociclistas, mas não necessariamente a gente vê registros que esse acidente foi em um momento de atividade de trabalho. Se o motociclista estiver realizando uma entrega no momento do acidente, este pode ser caracterizado como acidente de trabalho, pois ele estava a serviço. Embora ele seja atendido pelo serviço de urgência como um acidente no trânsito que resultou em uma fratura, o evento pode não ser devidamente reconhecido como acidente de trabalho”

Para a pesquisadora, a qualificação da Rede de Atenção à Saúde é fundamental. Além dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), as UPAs, os Hospitais, unidades básicas e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), por exemplo, também precisam considerar a variável “trabalho” nos atendimentos, realizando anamnese ocupacional e notificando adequadamente os casos. “Portanto, para a prevenção de doenças e agravos relacionados ao trabalho, a rede de saúde deve estar qualificada para considerar a variável "trabalho" em suas diversas demandas e atendimentos e além da identificação, precisa de notificação, visto que os índices de notificação ainda são baixos no sistema do Ministério da Saúde. Observamos elevados índices de afastamentos na previdência, porém com poucos dados no sistema de saúde. Isso dificulta todo um planejamento e direcionamento das ações, impactando também o financiamento.”

Para além da qualidade de vida: a qualidade do trabalho

Manoela Lopes defende que o debate precisa avançar da noção de “qualidade de vida no trabalho” para a compreensão da “qualidade do trabalho”. Isso significa analisar a organização, os processos produtivos e as decisões estruturais que moldam as condições laborais. Equipamentos de proteção são importantes, porém insuficientes se os determinantes do trabalho também não forem levados em consideração. 

Por fim, a professora destaca que a prevenção exige abordagem intersetorial, envolvendo saúde, trabalho, previdência, sindicatos e outras instituições. “Compreender as dificuldades e adotar abordagens sistêmicas são fundamentais para que as políticas públicas sejam efetivas, evitando que a responsabilidade recaia apenas sobre o trabalhador e que novos trabalhadores adoeçam nos mesmos setores” finalizou a professora.