
Ana Regina Barros Rêgo Leal é docente da UFPI e referência internacional no estudo sobre desinformação
“O Brasil demonstrou ser um verdadeiro laboratório de desinformação no mundo digital.” A constatação, apresentada em pesquisa do Instituto Igarapé (2023), evidencia a expansão dos fenômenos da desinformação em diferentes esferas da sociedade brasileira. Ao trazer o debate para o contexto das instituições públicas de ensino superior, percebe-se que os ataques têm sido constantes e sistemáticos.
De acordo com artigo publicado na revista Ciência & Educação (2025), a disseminação de fake news tem impactado diretamente a reputação das universidades. Criadas com o propósito de chamar atenção, desinformar ou obter vantagens sociais, políticas e/ou econômicas, essas narrativas falsas são propagadas de forma deliberada, sobretudo no ambiente digital, ampliando seu alcance e seus efeitos nocivos.
Nesse cenário, o Instituto Igarapé destaca que os brasileiros estão entre os usuários mais ativos de redes sociais no mundo, formando o maior contingente fora da Ásia e dos Estados Unidos. Em um país com cerca de 215 milhões de habitantes (2022), o WhatsApp soma mais de 165 milhões de usuários, seguido por YouTube (138 milhões), Instagram (122 milhões), Facebook (116 milhões), TikTok (73,5 milhões) e Twitter/X (19 milhões). “Não é de surpreender que notícias falsas circulem rápida e amplamente em todas essas plataformas, especialmente porque elas não contam com o mesmo nível de moderação de conteúdo observado na América do Norte e na Europa Ocidental” (Instituto Igarapé, 2023).
O artigo da Ciência & Educação aponta, ainda, que muitas publicações sobre universidades têm como objetivo construir um imaginário fragmentado, no qual as instituições de ensino superior passam a ser vistas com repulsa e descrédito, reforçando discursos de demérito direcionados às universidades brasileiras.
Diante desse contexto, a Superintendência de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí (SCS/UFPI) convidou a pesquisadora do Departamento de Jornalismo, professora Ana Regina Rêgo, para participar de uma entrevista sobre desinformação no âmbito institucional. A docente pesquisa o tema desde o pós-doutorado realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2019, e foi a criadora da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), em 2020, consolidando-se como referência internacional na área.
Desinformação para além de um boato
“A desinformação raramente é usada como boato”, enfatiza Ana Regina Rêgo. Segundo a pesquisadora, no atual contexto de plataformização da vida, a desinformação é formada por uma série de fatores que favorecem sua rápida circulação e viralização. Trata-se de uma estratégia deliberada de ação, voltada à captura da atenção e, muitas vezes, à monetização de conteúdos, com o objetivo de ampliar alcance, engajamento e número de seguidores.
“No contexto social e político, a desinformação é conhecida por diferentes nomes, como boato, mentira, entre outros. A mentira, inclusive, é utilizada há muito tempo no ambiente político. A intencionalidade, em geral, é a polarização ou o estímulo ao conflito político, com o objetivo de dividir para facilitar processos de hegemonia e dominação”, explica a pesquisadora.
Ao trazer esse fenômeno para o âmbito das universidades públicas, Ana Regina Rêgo alerta para a gravidade do problema. “No governo passado, tivemos inúmeros ataques às universidades públicas, muitos dos quais permanecem circulando nas redes sociais até hoje. Isso faz com que pessoas que nunca estiveram em uma universidade pública construam e mantenham uma imagem negativa dessas instituições”, afirma.
Segundo a docente, esse tipo de prática configura uma estratégia de desestabilização institucional, que coloca a universidade e sua gestão sob suspeição. “As consequências são extremamente negativas, não apenas para a universidade ou para o grupo diretamente atingido, mas para todo o contexto social. As universidades públicas desempenham um papel fundamental no ensino, na pesquisa, na extensão e nas trocas sociais mediadas com a comunidade do entorno e com a sociedade como um todo”, frisa.
Mensagens falsas viralizam mais que informações oficiais
A pesquisadora Ana Regina Rêgo destaca que, em geral, as mensagens falsas são construídas para evocar afetos negativos. “Elas mobilizam sentimentos como ódio, medo e ansiedade, provocando reações emocionais intensas. Isso amplia significativamente a capacidade de viralização dentro das plataformas digitais”, explica.
Segundo a docente, esse fenômeno não se restringe ao ambiente on-line. “Fora das plataformas, a dinâmica ocorre de forma semelhante. Mesmo pessoas que não estão incluídas digitalmente, cerca de 20 milhões de brasileiros, acabam recebendo desinformação por meio da copresença, do contato direto com quem consome esses conteúdos no ambiente digital”, afirma.
Ana Regina Rêgo ressalta que o impacto tende a ser ainda mais profundo quando a desinformação envolve temas sensíveis. “Quando essas pessoas se deparam com conteúdos falsos que, por exemplo, atingem crianças, isso toca diretamente no âmago emocional. Afeta a sensibilidade pública e aciona imediatamente sentimentos de rejeição, revolta e ódio”, pontua.
A pesquisadora cita ainda um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), realizado em 2018 na plataforma Twitter. “A pesquisa comprovou que a desinformação que convoca afetos negativos tem um potencial de viralização cerca de 70% maior do que informações verdadeiras. Esse tipo de conteúdo pode alcançar até 100 mil pessoas, enquanto um fato jornalístico apurado ou uma informação científica, sem esse apelo emocional, tende a alcançar cerca de mil pessoas”, acrescenta.
A relação entre outdoors, memes e a desinformação
A pesquisadora Ana Regina Rêgo ressalta que toda comunicação pensada para impactar rapidamente vai além do formato em si. “Não se trata apenas de um meme ou de uma peça audiovisual isolada, mas, sobretudo, do que ela está comunicando e convocando. É esse chamado que realmente captura a atenção”, explica.
Segundo a docente, a lógica do impacto imediato orienta diferentes estratégias comunicacionais. “Um outdoor, por exemplo, dispõe de cerca de quatro segundos para captar a atenção de quem passa pela via pública. O que se faz, então? Utiliza-se uma manchete forte, capaz de chamar a atenção e provocar um impacto inicial. A partir daí, o indivíduo vai, aos poucos, assimilando o que está sendo comunicado naquela peça”, exemplifica.
Ana Regina Rêgo destaca que o mesmo princípio se aplica ao ambiente digital. “Uma peça audiovisual, uma ‘dancinha’ no TikTok, entre outros formatos, precisam impactar para atrair. É justamente por isso que a desinformação trabalha, necessariamente, com chamadas e títulos impactantes”, afirma.
Ela conclui alertando para a dificuldade de checagem diante desse tipo de conteúdo. “O impacto é imediato, mas a verificação não é. Não há como checar a informação naquele instante. Para isso, é preciso parar, refletir e dispor de tempo, algo que muitas vezes não ocorre na dinâmica acelerada das plataformas digitais e na correria do dia a dia.”
Como o público pode diferenciar uma crítica legítima de uma peça de desinformação?
Para a pesquisadora Ana Regina Rêgo, essa não é uma preocupação restrita às Universidades, mas se estende a qualquer tipo de gestão ou grupo social. “Universidades, gestores, políticos, famílias, todos podem se tornar alvos de campanhas de desinformação. Uma forma efetiva de enfrentamento é observar o que está sendo comunicado e buscar a fonte originária da informação”, orienta.
Segundo a docente, sempre que uma mensagem atribuir ações a instituições ou órgãos públicos, o caminho mais seguro é a verificação direta. “Se dizem que o STF fez algo, é preciso consultar o Portal da Transparência ou os canais oficiais. Se a alegação envolve um ministério ou a Universidade Federal do Piauí, o correto é recorrer às fontes institucionais legítimas da universidade para checar se aquilo, de fato, aconteceu”, explica.
Ana Regina Rêgo reconhece, no entanto, que esse processo enfrenta limitações. “Grande parte da população não acessa esses canais, seja por desconhecimento, seja por falta de tempo. Assim, a primeira imagem gerada pela desinformação acaba sendo a que permanece. Já o esclarecimento factual, uma matéria jornalística ou um comunicado oficial, dificilmente alcança o mesmo número de pessoas impactadas pela peça desinformativa”, ressalta.
A pesquisadora destaca ainda que, para as universidades públicas, o dano é especialmente sensível. “A reputação é o principal capital simbólico de uma instituição pública. É com base nela que a universidade dialoga com a sociedade, com os poderes públicos e com a comunidade que atende. Essa reputação é construída a partir do trabalho desenvolvido em cada gestão”, afirma.
Por isso, diante da circulação de mentiras, Ana Regina Rêgo reforça a importância da comunicação institucional. “É fundamental que a universidade chegue até essas comunidades e apresente o que de fato está acontecendo. Os fatos precisam ser colocados de forma clara e acessível, para que a sociedade tenha condições de diferenciar a crítica legítima da desinformação”, esclarece.
Mensagem final de Ana Regina Rêgo
A pesquisadora Ana Regina Rêgo finaliza a entrevista chamando atenção ao que denomina de “mercado da construção intencional da ignorância”. Para ela, o enfrentamento desse cenário passa, necessariamente, por uma convocação ética. “É preciso adotar uma atitude ética na divulgação de informações, no trabalho comunicacional e, especialmente, no jornalismo, que deve estar comprometido com a factualidade e com aquilo que faz bem à comunidade, ao bem público e ao cidadão”, afirma.
Ana Regina Rêgo também se dirige diretamente ao público que consome informações nas redes. “Se você tem um pacote de dados que permite checar uma informação, cheque. Não compartilhe, não curta aquilo que você não verificou”, orienta. Segundo ela, diante de conteúdos que envolvam instituições públicas, como o Governo do Piauí ou a Universidade Federal do Piauí, é fundamental buscar os canais oficiais. “Chegue até essas instituições, confronte a informação e pergunte”, reforça.
Por fim, a pesquisadora destaca o papel do jornalismo como referência para a checagem. “Procure mais de uma fonte. Se você acessou apenas um jornal, um portal ou uma empresa de comunicação e ainda tem dúvidas, vá a cinco, vá a dez. Aquilo que é comum a todos é onde o fato se revela. É nesse ponto que a verdade está sendo construída e apresentada à sociedade”, conclui.
Conheça mais as obras de Ana Regina Rêgo:
A Construção Intencional da Ignorância: o Mercado das Informações Falsas (2020);