Pesquisa de mestrado da UFPI identifica relação entre confiança materna e técnica de amamentação

Estudo avaliou 318 mulheres no pós-parto e aponta que mães com menor confiança para amamentar apresentaram maior chance de dificuldades na técnica

Uma pesquisa de mestrado desenvolvida na Universidade Federal do Piauí (UFPI) identificou uma relação positiva entre a confiança da mulher para amamentar e a técnica de amamentação durante o período pós-parto. O estudo apontou que mulheres com níveis baixos ou moderados de autoeficácia materna apresentaram maior chance de também apresentar dificuldades na técnica.

Desenvolvida pela mestra Ludiane Rodrigues Dias Silva, no Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comunidade da UFPI, a pesquisa avaliou 318 puérperas atendidas em um hospital de referência no Piauí, entre setembro de 2024 e agosto de 2025. A coleta envolveu entrevistas e observação da técnica de amamentação.

Da experiência profissional à pesquisa

O interesse de Ludiane pelo tema começou antes do mestrado, durante sua atuação na atenção básica, onde acompanhava mulheres durante o pré-natal e trabalhava com questões relacionadas à amamentação. No mestrado, ela teve contato com o conceito de autoeficácia materna e passou a investigar sua relação com a prática de amamentar.

A dissertação fez parte de um projeto multicêntrico desenvolvido em colaboração com a professora Lorena Barbosa Pinheiro, da Universidade Federal do Ceará (UFC), e outras instituições. Para a orientadora da pesquisa, Jardeliny Corrêa da Penha, a realização do estudo envolveu diferentes etapas, desde a construção da proposta até a coleta e análise das informações.

Segundo ela, a vivência prática durante a pesquisa contribuiu para aprofundar a compreensão sobre a relação entre confiança e cuidado em saúde.

“A vivência prática da avaliação da técnica de amamentação durante a coleta de dados” foi uma das etapas importantes para o desenvolvimento da pesquisa, destaca Jardeliny.

A orientadora também avalia que a dedicação de Ludiane foi fundamental para a construção do trabalho.

“A Ludiane foi uma mestranda muito dedicada, que fez uma imersão grandiosa no seu objeto de estudo e nos apresentou um trabalho com evidências científicas que podem impactar positivamente nas práticas de saúde”, afirma.

Confiança também faz parte da amamentação

Na pesquisa, a autoeficácia materna está relacionada à confiança que a mulher possui para amamentar e enfrentar as dificuldades que podem surgir durante esse processo. Entre as participantes, 86,8% apresentaram alta autoeficácia, enquanto 78,9% apresentaram habilidade adequada na técnica de amamentação.

A análise identificou uma correlação positiva entre os dois aspectos. Mulheres com níveis baixos ou moderados de autoeficácia apresentaram maior chance de apresentar níveis baixos ou moderados de habilidade na técnica de amamentação, especialmente na avaliação geral e na pega.

Para Ludiane, os resultados mostram que a assistência não deve se limitar à transmissão de orientações técnicas.

“Além da técnica adequada, quanto mais a mulher se sentir confiante, ou seja, quanto maior for sua autoeficácia para amamentar, maior tende a ser sua capacidade de persistir diante das dificuldades que podem surgir durante esse processo. Consequentemente, essa confiança pode favorecer a continuidade do aleitamento materno até os seis meses de vida do bebê. ”, explica a pesquisadora.

A pesquisadora destaca ainda que o conceito de autoeficácia ajuda a compreender que a confiança da mulher pode ser trabalhada durante a assistência.

“A assistência do profissional não pode se limitar apenas aos quesitos técnicos da amamentação. Ela precisa contemplar também o fortalecimento da confiança da mãe para amamentar”, afirma.

Dificuldades aparecem nos primeiros dias

A experiência de Juliane Ibiapina, mãe de primeira viagem, mostra como as dificuldades identificadas pela pesquisa podem fazer parte do cotidiano de quem começa a amamentar.

Nos primeiros dias após o nascimento do filho, João Arthur, ela enfrentou dificuldades para realizar a pega e desenvolveu fissuras que chegaram a sangrar. O período foi marcado por dor, cansaço e insegurança.

“Foi bem difícil, na verdade foi bem desafiadora. Eu tinha muita vontade de amamentar, mas sem dúvida os primeiros dias foram os mais difíceis, mais até do que eu imaginava”, relata.

Apesar de ter recebido algumas orientações durante o pré-natal, Juliane afirma que a prática trouxe desafios que não estavam previstos.

“A gente pode até saber um pouquinho da teoria, a gente estuda antes, mas quando o bebê nasce surgem outras dificuldades. A realidade é outra”, conta.

A busca por ajuda profissional foi decisiva para superar esse período. Juliane procurou o banco de leite da Maternidade Ana Evangelina Rosa, onde recebeu orientações sobre pega e posicionamento. Ela também realizou tratamento para as fissuras.

“As orientações que todas as nutricionistas me passaram foram muito importantes para que o bebê pudesse ter essa pega melhor e o posicionamento também”, afirma.

Para ela, o acompanhamento depois do nascimento foi fundamental para recuperar a segurança.

“O que me ajudou foi buscar esse apoio, tentar entender que eu não precisava passar por aquilo sozinha”, relata.

Orientação pode fortalecer a segurança

A experiência de Juliane também se aproxima do que é observado pelas profissionais que atuam na assistência obstétrica. A enfermeira obstetra Jessinara Fontenele Luis explica que a amamentação é um processo de aprendizagem tanto para a mãe quanto para o bebê.

“É algo novo pra mãe, tanto pra mãe quanto pro bebê é algo novo. Então é algo que os dois ainda vão aprender”, afirma.

Segundo a profissional, as dificuldades podem ser mais frequentes entre mulheres que estão vivenciando a maternidade pela primeira vez. Em alguns casos, ajustes no posicionamento ou na pega podem ser suficientes para melhorar a mamada.

“Às vezes realmente é só um ajustezinho e já segue a amamentação muito tranquila”, explica.

A pesquisa também identificou que 76,1% das participantes amamentaram na primeira hora de vida. Para Jessinara, esse contato inicial é importante para mãe e bebê e pode contribuir para o estabelecimento da amamentação.

Outro aspecto observado no estudo foi a elevada frequência de partos cesáreos: 69,2% das participantes foram submetidas à cesariana. Na prática, Jessinara explica que a dor e a dificuldade de movimentação após o procedimento podem dificultar a busca por uma posição confortável para amamentar.

Preparação começa no pré-natal

Embora 98,7% das participantes tenham realizado pré-natal, 66,4% relataram ter recebido orientações sobre aleitamento materno exclusivo. Para Jessinara, a amamentação precisa ser abordada de maneira contínua durante o acompanhamento da gestação.

“Precisa existir mais essa orientação durante todo o pré-natal. Toda consulta falar um pouquinho”, defende.

A enfermeira obstetra Bruna Maria de Moura Soares também destaca o papel do conhecimento na construção da segurança da mulher.

“O conhecimento é fundamental. Se ela tem conhecimento sobre a técnica, a importância, ela vai confiante, ela acredita no que ela faz”, afirma.

Para a profissional, a preparação não deve se restringir à mulher. A família e as demais pessoas que fazem parte da rede de apoio também precisam compreender a importância da amamentação e saber como contribuir nesse período.

Cuidado continua depois da alta

Para Ludiane, os resultados reforçam que o cuidado com a amamentação deve ir além das orientações técnicas. A mulher precisa ter espaço para falar sobre medos, inseguranças e dificuldades, além de receber acompanhamento individualizado e apoio emocional.

A pesquisadora defende que esse cuidado comece ainda no pré-natal e continue após o parto, com a participação da rede de apoio e dos profissionais de saúde.

Jessinara também destaca a importância do acompanhamento nos primeiros dias após a alta, quando dificuldades que poderiam ser solucionadas com orientação podem contribuir para a interrupção precoce da amamentação.

A pesquisa, segundo Ludiane, reforça a necessidade de considerar tanto os aspectos técnicos quanto subjetivos da experiência materna. Como próximos passos, a pesquisadora aponta a realização de estudos que acompanhem as mulheres ao longo do tempo e considerem diferentes fatores maternos, obstétricos, neonatais e relacionados à assistência.

Para Juliane, que vivenciou as dificuldades na prática, pedir ajuda foi parte fundamental do processo. Para outras mães que estão começando, ela deixa um conselho:

“Não idealizar a amamentação.”

E completa:

“Se existe alguma vergonha, algum receio de pedir ajuda, que isso não exista. É muito difícil, então a orientação é realmente pedir essa ajuda e não se culpar pelas coisas que acontecerem.”

Para ela, cada experiência é diferente: “Cada mãe é uma mãe, cada bebê é um bebê e são experiências diferentes.”